D uma chance ao amor
Second time lucky
Victoria Glenn
BD 493.2


 



Desprezada, Lara sepultou seus mais caros sonhos romnticos

      Se Lara j achava um absurdo voltar a Pine Harbor, ficou ainda mais perturbada ao rever Alan Crane. Nunca tivera olhos para ele, considerando-o apenas um bom colega. Mas agora era impossvel no reparar em Alan, na maneira como conciliava a inteligncia e o charme. Sem dvida um homem de estilo, dono de uma sensualidade tranqila, sutil ao exigir a ateno de Lara. Ela, entretanto, no poderia ceder. Sabia o quanto sofrera no passado, por causa de outro homem da famlia Crane. Tudo indicava que Alan s lhe traria mais problemas... como no passado!


Obs: No texto original o nome do mocinho  Miles, e no Alan.
 

Digitalizao e Reviso: m_nolasco73 














































































































CAPTULO I
       
       Lara passou pelo porto de desembarque e olhou ao redor: l estava Alan Crane, os cabelos loiros e lisos, as roupas sbrias, o ar formal que sempre o caracterizara, o corpo rgido e muito alto. Era difcil crer que aquele homem incrivelmente srio fosse irmo de Jason.
       Jason Crane... Mesmo agora, passado tanto tempo, o corao de Lara batia assustado ante a lembrana desse nome. O belo e risonho Jason, que tantas mgoas lhe causara. O nico homem que ela amara verdadeiramente na vida.
       Com um brusco meneio de cabea, Lara afastou Jason de sua mente. Este nome j no fazia parte de seu mundo. Seis anos haviam varrido para sempre qualquer vestgio de Jason. E o homem que agora a aguardava no aeroporto Kennedy era to diferente de Jason, seu irmo caula, como a noite do dia.
       - Alan! - Lara tocou-lhe o ombro e, erguendo-se na ponta dos ps, abraou-o calorosamente.
       Um tanto surpreso por essa demonstrao de entusiasmo, ele afastou-a de si com um gesto delicado e respondeu:
       - Seja bem-vinda.
       Tarde demais... Ela compreendeu rapidamente o quanto fora inbil. Durante todo o tempo em que convivera com Alan, Lara jamais havia demonstrado qualquer afeio por ele. Mas o abrao que lhe dera fora to natural, quase impensado...
       Esse era um costume comum na Califrnia, onde vivera durante os ltimos seis anos. As pessoas em Los Angeles tinham modos descontrados. Beijos e abraos eram comuns, at mesmo entre simples conhecidos, Lara pensou, dando-se conta agora do quanto aquele abrao fora imprprio. No entanto, percebeu tambm, um tanto surpresa, que Alan parecia mais amvel do que sempre fora. E que seu corpo alto e atltico transmitia um calor inesperado.
       - E ento? - ele indagou com voz grave e pausada. - Fez boa viagem?
       - Sim, obrigada. Agradeo tambm por ter vindo me esperar. 
       Alan fitou-a por um longo momento, antes de responder:
       - Voc no deve me agradecer. Sou eu que me sinto grato por ter concordado em vir.
       Lara sorriu, exibindo os dentes brancos e perfeitos.
       - Bem, ento vamos parar de agradecimentos. Diga-me como est Lizbeth?
       Alan comprimiu os lbios e uma nuvem de tristeza turvou-lhe os olhos azuis.
       - Nada bem, eu receio. Mas sua vinda significa muito para ela. E voc sabe como essa grande alegria lhe far bem... embora eu possa imaginar o quanto custe para voc retornar para c.
       - Eu amo Lizbeth - Lara replicou com firmeza. - E sou capaz de fazer qualquer coisa por ela, independente de quanto possa me custar.
       Na verdade, Lara quase no podia crer que estava de volta. E o fizera, realmente, apenas em considerao  velha e querida Lizbeth, sua madrinha. E tia de Alan... E de Jason.
       H seis anos que no encontrava a velha senhora. E h seis anos, tambm, que partira de Pine Harbor para nunca mais voltar.
       Durante todo esse tempo que passara na Califrnia, ela jamais considerara, sequer por um momento, a possibilidade de tornar a pr os ps em sua cidade natal. Jurara a si mesma que nunca retornaria quele lugar, depois do choque doloroso que sofrer com Jason, num dia que deveria ter sido o mais belo de sua vida.
       E agora essa lembrana, que por tanto tempo desejara apagar, voltava-lhe com chocante e dolorosa nitidez.
       Por que fora to ingnua, a ponto de julgar que j estava imune a essa dor? Por que retornar a um passado cheio de lembranas, que deveria riscar de sua vida?
       Por Lizbeth, ela respondeu, em silncio.
       - Eu realmente duvidei que voc viesse - Alan comentou, como se lhe adivinhasse os pensamentos.
       - Bem... - Lara procurou sorrir - aqui estou eu.
       Ele no respondeu. Apenas a observou com intensidade. E ela, de repente, deu-se conta de que aqueles olhos azuis estavam ainda mais belos. Ou talvez nunca os tivesse notado.
       -  melhor pegarmos sua bagagem - ele sugeriu, mudando propositadamente de assunto. - D-me os tquetes, por favor.
       Lara apontou a valise a seus ps.
       - Esta  minha nica bagagem.
       - Ora... - Alan reagiu, surpreso. - Que novidade.
       - Como assim? - ela indagou, sem entender.
       - Que eu me lembre, voc nunca viajava sem levar pelo menos quatro malas... alm de uma infinidade de frasqueiras e sabe Deus o que mais - ele retrucou, pegando a valise.
       O comentrio, feito de maneira descontrada, deixou-a surpresa.
       - Voc no est exagerando um pouco?
       - No. A Lara MacEuan que eu conheci tambm usava uma roupa diferente para cada hora do dia.
       - Bem, eu j no sou exatamente a mesma Lara que voc conheceu no passado - ela replicou, num tom srio.
       - Estou vendo que no - Alan concordou. Lanou em seguida um olhar prolongado para a mulher a sua frente, pensando que Lara parecia muito mais bela do que antes. Agora, passados seis anos, ela j no era a garota estonteante que despertava paixes avassaladoras em todos os rapazes da cidade. Era bem mais que isso: tinha se tornado uma mulher to bonita quanto interessante.
       As curvas do corpo haviam se suavizado aos toques do tempo. Os cabelos negros tinham crescido e caam-lhe em suaves ondas, at o meio das costas. Os olhos amendoados, cor de mel, ainda o fascinavam. Contudo, havia uma profundidade diferente neles, o que os tornava ainda mais belos. E uma certa tristeza tambm...
       Alan comprimiu os lbios, num gesto de pesar. Sabia muito bem quem fora o responsvel pela tristeza que marcava os olhos de Lara: Jason, seu prprio irmo... e ningum mais. Alis, Jason era um verdadeiro mestre, quando se tratava de fazer a infelicidade de quem quer que fosse.
       "Chega", ele se ordenou, com firmeza.
       No deveria pensar em Jason, nem tampouco em Lara, sobretudo agora que ela estava to prxima. Sabia muito bem o quanto havia sofrido em todos esses anos, que no deixara de lembrar-se dela por um minuto sequer.
       - Ento, podemos ir andando, se voc quiser. Eu... - Lara no chegou a completar a frase.
       Um garotinho de cerca de quatro anos, que vinha em desabalada carreira por entre as muitas pessoas que lotavam a sala de espera, chocou-se contra suas pernas e quase a fez perder o equilbrio.
       Delicadamente Lara segurou-o e, ao ver que ele chorava, indagou num tom suave:
       - O que foi, querido?
       Alan tambm se inclinou, preocupado com o garotinho, que continuava a chorar. Olhou ao redor,  procura de seus pais. Entretanto, as pessoas em volta apenas observavam a cena com ar curioso.
       Lara insistiu, ajoelhando-se ao lado do menino:
       - Conte para mim o que aconteceu, meu bem. Voc se perdeu de sua me... ou de seu pai, talvez?
       - Mame... - o menino respondeu, desolado.
       Lara enxugou-lhe as lgrimas com um leno absorvente que retirou do bolso.
       - Ora, no fique assim to triste. Ns vamos encontr-la, est bem? - Voltando-se para Alan, sugeriu: -  melhor procurarmos o balco de informaes do aeroporto. Precisamos anunciar pelo alto-falante que o menino est perdido.
       Tomando a criana pela mo, deu alguns passos, quando uma mulher ruiva aproximou-se. Sem ao menos olhar para Lara, tomou a criana bruscamente de suas mos.
       - Seu pequeno demnio! - a mulher exclamou, sacudindo o garoto com violncia. - Eu j lhe disse mil vezes para no falar com estranhos.
       Um grupo de curiosos formou-se ao redor de Lara e Alan, que, perplexos, viram a mulher afastar-se com o menino, que voltava a chorar.
       - Espere, senhora! - Lara tentava alcan-los.
       - Deixe - Alan sugeriu, segurando-a levemente pelo brao. Com um olhar furioso, resmungou: - Que mulher grosseira. Ser que no percebeu que voc estava apenas tentando ajudar o menino?
       Os curiosos se dispersaram e Lara, com uma expresso atnita, ainda comentou:
       - Tem razo, Alan. Bem, talvez ela estivesse apenas nervosa. Com certeza foi isso. Estava desesperada atrs do filho e nem teve tempo de perceber que ns...
       - Nisso voc no mudou - ele a interrompeu, sem controlar a ternura que Lara lhe despertava. - Voc continua esperando o melhor das pessoas, procurando ver sempre o lado mais bonito delas. No entanto, nem sempre as pessoas so bonitas, Lara...
       Ela sustentou-lhe o olhar e por fim aquiesceu:
       - Gostaria de desmenti-lo... Mas infelizmente voc tem razo.
       Um clima de constrangimento caiu sobre ambos. O comentrio de Alan fazia uma clara aluso ao passado, que ela tanto desejava esquecer.
       - Vamos? - ele props, por fim. - Se nos apressarmos, poderemos evitar a hora do rush.
       Ele continuou a andar, levando a valise de Lara, que o seguia. "Seu grandessssimo idiota", disse para si mesmo, abrindo caminho entre as pessoas que lotavam a sala de espera.
       O fato era que estava arrependido por ter dito aquilo. E a angstia que vira estampada no semblante de Lara abatia-o agora, como um duro golpe.
       Estava claro que ela ainda no se refizera do trauma que sofrera. E seis anos haviam se passado!
       Lara apressava-se para acompanhar Alan Crane. Havia uma expresso inquieta em seus olhos, enquanto observava-o transitando entre  multido, os ombros largos, o porte sbrio.
       Por um instante, Lara fechou os olhos. Era terrvel admitir, mas o fantasma de Jason Crane ainda a perseguia. A certeza de que o havia esquecido, cultivada em todos esses anos, desmoronava agora como um castelo de cartas.
       E a piedade que lera nos olhos de Alan, momentos atrs... era a mesma com que a fitava, seis anos antes, quando tudo acontecera. Contudo nem naquela poca nem agora Lara queria caridade de quem quer que fosse.
       Caminharam em silncio e por fim saram no estacionamento do aeroporto Kennedy. Era uma tarde quente de julho. Nuvens pesadas acumulavam-se no cu, prenunciando uma boa chuva, que viria refrescar o clima opressivo.
       - O carro est logo ali - Alan informou, apontando uma passagem  direita, muito estreita, por entre as filas de carros estacionados.
       Lara aquiesceu e continuou a segui-lo. L estava o Mercedes cor de bronze e, um tanto emocionada, ela reparou num pequeno pingente vermelho preso ao espelho retrovisor.
       - Oh! - exclamou, como se ainda no acreditasse no que estava vendo.     Voc o conserva at hoje.
       - O carro? - Alan indagou, distrado, enquanto abria a porta para que ela entrasse. - Sim, resolvi conserv-lo.
       - No - Lara replicou, acomodando-se no assento. - Estou me referindo a isto... - disse, tomando na mo o pingente de cetim vermelho que certa vez ornamentara sua beca, numa noite de formatura.
       Emocionada, sentindo-se frgil diante de mais aquela pequena surpresa, ela viu Alan dar a volta e acomodar-se em frente ao volante. E novas lembranas lhe afloraram  mente, trazendo imagens longnquas da noite de sua colao de grau...
       
       
       Ficara combinado que Jason a apanharia s oito, para lev-la ao baile. Desde as sete horas estava pronta, esperando-o, perguntando-se o que ele pensaria de seu novo vestido. A prpria Lara desenhara o modelo e o costurara.
       " nossa noite de gala", ela se dizia. Mal cabia em si de felicidade, andando de um lado ao outro da sala, olhando a todo momento a rua para ver se Jason no estaria chegando.
       Por volta de nove horas, Lara comeou a desanimar. Entretanto, mesmo assim continuava a esper-lo. Afinal, o baile duraria at quase o amanhecer. Com certeza Jason tivera um contratempo, ela se repetia a todo momento.
       Quando a campainha soou, passava um pouco das onze. Lara correu para atender, mas seu sorriso desvaneceu-se ao ver Alan.
       - Serei seu acompanhante no baile - ele disse, parecendo muito nervoso e agitado. - Isto , se me quiser...
       - Obrigada, mas desisti de ir ao baile - ela respondeu, baixando os olhos para que ele no percebesse as lgrimas que ali se formavam.
       - Mas... mas acontece que  seu baile de formatura - Alan disse, num tom tmido. - E voc no pode perd-lo.
       - Posso... tanto  que vou - Lara teimou, nada desejosa de sair com aquele rapaz tmido e desengonado, irmo mais velho de um dos garotos mais disputados da cidade.
       Alan caminhou de volta para o carro, mas de repente voltou atrs e, tomando Lara pela mo, conduziu-a at o Mercedes, indiferente aos protestos da garota.
       - Voc no pode perder seu prprio baile de formatura - repetiu, acionando o motor.
       - Tudo bem - ela consentiu, por fim, recostando-se no assento. - Voc venceu, e agradeo sua considerao comigo, embora voc a tenha demonstrado de uma maneira... um tanto brusca, digamos.
       Alan no respondeu. Apenas acelerou o veculo, em direo ao salo de festas.
       E danou com ela naquela noite, embora mantivesse o ar distante de quem apenas cumpria alguma obrigao. Entretanto, no final da noite, quando ambos haviam sado e procurando um bar para o ltimo drinque antes de regressarem  casa, uma conversa agradvel se desenrolou.
       Na hora da despedida, Lara retirou um dos pingentes de cetim que lhe adornavam a beca e deu-o de presente a Alan.
       Dependurou-o no espelho retrovisor, dizendo que aquele seria o smbolo da noite, que afinal acabara se tornando mais agradvel do que esperavam.
       
       
       - Voc tambm se lembra, no? E j faz tanto tempo... - Alan indagou, trazendo-a de volta  realidade, apontando o enfeite que balanava  medida que o carro percorria as ruas movimentadas de Nova York.
       - Sim - ela concordou, num fio de voz.
       Teria gostado de comentar algo mais sobre aquela noite to longnqua, mas simplesmente no sabia o que falar a algum que raramente recordara nos ltimos seis anos.
       Na verdade, jamais imaginara tornar a ver Alan Crane. No entanto, inesperadamente ele ligara para Los Angeles, pedindo-lhe ansioso que viesse, pois Lizbeth encontrava-se doente e estava ansiosa para v-la.
       - Claro... - Alan dissera, sentindo-se terrivelmente constrangido durante a conversa telefnica. - Eu no deveria jamais lhe pedir isso. Imagino o grande transtorno que voc ter para largar tudo e voar para c, a fim de passar alguns dias... Mas Lizbeth est to deprimida... E sei o quanto ela ficaria feliz, se a visse... - Entretanto, Alan, cautelosamente, no fizera nenhuma referncia ao passado. Lara jurara a si mesma que jamais retornaria a sua cidade natal, situada ao sudeste de Connecticut, que possua to belas praias. No depois de tudo o que acontecera.
       Contudo, agora a doena de Lizbeth exigia-lhe que deixasse de lado a amargura e que pagasse o preo de retornar  cidade onde tanto sofrera. Era por Lizbeth que o fazia, e o faria quantas vezes fosse preciso, pois amava aquela mulher que sempre a tratara como sua prpria neta. E fora Lizbeth que cuidara dela quando Jason a abandonara no altar, seis anos atrs.
       Para Lizbeth o casamento de seu sobrinho-neto com a garota que ela considerava a mais encantadora da cidade era motivo para a mais pura felicidade. Entretanto, quem poderia adivinhar que tudo terminaria numa grande catstrofe? Que Jason desapareceria sem qualquer explicao, convertendo o que seria o maior casamento da regio no fato mais lamentvel j acontecido em Pine Harbor...
       E Jason?, Lara perguntava-se, retesando-se no assento. Por onde andaria?
       Para sua surpresa, Alan comentou, como se lhe adivinhasse os pensamentos:
       - H uns sete meses que no tenho notcias de Jason. Recebi um carto dele no ltimo Natal. Mas no vinha o endereo do remetente. O envelope tinha o carimbo da Malsia.
       Essas informaes foram ditas num tom seco, quase telegrfico, como se ele estivesse ansioso por desvencilhar-se o mais rpido possvel de alguma obrigao.
       Lara deduziu isso, antes de replicar:
       - Mas como foi que voc... adivinhou? - Ento, mudando de tom, apenas afirmou: - De qualquer forma, agora isso j no me importa.
       - Tenho certeza de que no - ele murmurou, cornos olhos fixos no trnsito, que se tornava mais intenso, conforme se aproximava a hora do rush.
       As primeiras luzes se acendiam em Nova York. A multido lotava as caladas.
       Alan dirigiu em silncio por algum tempo e s ento voltou ligeiramente a cabea na direo de Lara, para pedir:
       - Mas me fale de voc... De seu sucesso profissional em Los Angeles, por exemplo.
       A frase, dita num tom de genuno interesse, pegou-a de surpresa. Que Lara se lembrasse, Alan nunca se mostrara to gentil... Bem, o tempo agia sobre todas as pessoas. Ele tambm mudara, afinal.
       - Estou indo razoavelmente bem em meu trabalho - ela afirmou, com modstia.
       Alan virou-se novamente para ela e um meio sorriso insinuou-se em seus lbios.
       - Ora, voc na verdade est indo bem melhor. Como pode chamar de razovel o fato de ser uma das principais redatoras do programa de Hap Harrigan? Esse  um dos campees de audincia na tev americana! - Aps uma pausa, acrescentou: - Bem... isso no me surpreende. Afinal, eu sempre soube que voc era talentosa.
       Mais uma vez ela reagiu, perplexa com as mudanas que se haviam operado em Alan Crane:
       - Voc... sempre soube?
       - Claro - ele aquiesceu, atento ao semforo que se abria.
       - Nunca imaginei que voc pensasse assim.
       - O que acha que eu pensava, ento, a seu respeito? - ele retrucou, calmamente. - Que voc era uma cabea-de-vento ou algo assim? Que voc no tinha nada mais a oferecer, alm de um corpo e um rosto bonito?
       Lara levou alguns segundos para responder:
       - Sinceramente... sim. Essa parte a d "cabea-de-vento", sobretudo,  mais prxima do que eu imaginava de sua opinio sobre mim.
       Lara calou-se, pensativa, voltando o rosto para a paisagem urbana de Nova York. No desejava que Alan percebesse o quanto ficara atnita com aquela sbita revelao. Nunca lhe ocorrera que Alan pudesse ach-la bonita. Tampouco talentosa. Seria essa surpresa a causa da incmoda sensao que agora a assaltava?
       - Eu sempre soube... - ele afirmou minutos depois, como se para si. - Sempre mesmo.
       - Do que voc est falando, Alan?
       - De seu talento, naturalmente - ele respondeu, sem olh-la. - Seu sucesso em Los Angeles  mais do que merecido, acredite. Voc sempre foi capaz de grandes coisas.
       Lara no respondeu. Era estranho estar ali, ao lado de Alan, naquele carro onde por tantas vezes sara com Jason...
       Era mais estranho ainda estar indo para a Nova Inglaterra, depois de ter jurado que jamais colocaria de novo os ps naquele solo onde nascera.
       E como Alan estava mudado! Na verdade, Lara conhecia-o praticamente desde muito pequena, embora essa fosse a primeira vez que conversavam verdadeiramente. Ou melhor, pela primeira vez ele a tratava como uma mulher adulta, em vez de olh-la como uma adolescente rebelde e imprevisvel.
       Mas ento, Lara pensou, fitando com ateno o homem a seu lado... Alan estivera certo antes, e o estava agora. Pois, h seis anos, ela era de fato uma adolescente rebelde. E agora era uma mulher!
       Alm do mais, naquele tempo jamais se preocupara com Alan ou com o que ele pudesse sentir. Alan Crane jamais fizera parte de seu mundo. Mesmo quando jovem, ele parecia por demais retrado e srio.
       Lara podia record-lo, na poca em que ele tinha dezoito anos, indo todas as manhs para o Colgio Ivy League, com seu passo cadenciado e seu ar sisudo.
       Sempre fora um rapaz srio e determinado. Desde menino costumava dizer que queria ser advogado. E, aos dezenove anos, entrara para a faculdade. Ningum se surpreendera com o fato. Afinal, sempre cumpria o que prometia.
       Sim, Lara podia lembrar-se dele em muitas situaes: piqueniques, quando se retirava para a sombra de uma rvore e ali ficava por horas a fio, os olhos perdidos na paisagem, enquanto ela e Jason namoravam. E, quando iam ao cinema, Alan fazia questo de sentar-se sozinho, isolado dos demais.
       Sim, podia record-lo em tantos lugares: na escola, quando ele cursava os graus mais adiantados; na praa; na praia...
       "Ei!", ela censurou-se. "Desde quando voc se interessa por Alan? Desde quando tem o hbito de pensar nele?"
       - O que h de errado comigo? - a pergunta de Alan interrompeu-lhe as divagaes.
       - Perdoe-me - ela replicou com voz distante. - O que disse?
       - Voc esteve olhando para mim nos ltimos cinco minutos - ele respondeu, num tom calmo. - E eu estava me perguntando se h algo de errado comigo, s isso.
       Lara enrubesceu violentamente. Era absurdo admitir, mas o fato era que, de um momento para o outro, dava-se conta de que Alan se transformara num homem por demais atraente... Ou ele teria sido sempre assim, e fora ela quem jamais o notara?
       Fosse como fosse, essa revelao agora a surpreendia. O rosto de Alan, alm dos traos perfeitos, tinha um charme irresistvel: algo presente talvez na luminosidade dos olhos azuis, nas linhas firmes do queixo, nos lbios sensuais que raramente sorriam...
       O corpo de Alan, que sempre lhe parecera apenas alto, revelava-se agora como um corpo msculo, atltico, que transmitia uma espcie de fora  qual no era possvel manter-se indiferente.
       - Vamos l - ele pediu, inquieto. - Diga logo o que est acontecendo comigo. Acaso meus cabelos esto mudando de cor, ou talvez esteja me tornando um monstro? Seus olhos esto cada vez mais arregalados, e eu sinceramente estou comeando a me preocupar.
       Aquelas ltimas palavras, ditas num tom srio, tinham uma pitada de humor irresistvel. Eram de uma sutileza inesperada.
       Furiosa consigo mesma por enrubescer ainda mais, Lara replicou, forando um tom natural:
       - Ora, por que voc acha que est acontecendo algo to terrvel? Ser que uma pessoa no pode olhar para outra, simplesmente olhar, sem razo alguma? Alm do mais, h seis anos que no nos vemos. No lhe parece natural que... que eu queira observ-lo por alguns segundos?
       Alan fitou-a, surpreso.
       -  isso o que voc est fazendo? Apenas olhando para mim?
       - Claro - ela aquiesceu com uma segurana que estava longe de sentir. - O que h de errado em...
       - Nada de errado - ele interrompeu-a, pensativo. - Olhe o quanto quiser.
       Em seguida Alan forou-se a se concentrar no trnsito intenso das seis da tarde. Um estranho sentimento o invadia. Ele jamais fora o foco das atenes de quem quer que fosse... Sobretudo de Lara MacEuan!
       Com dedos tensos, apertou a marcha. O centro fervilhante de Nova York ficara para trs. Penetravam agora nos limites da Nova Inglaterra.
       A tenso crescia no ntimo de Alan. De repente, nas ltimas duas semanas, o mundo parecia ter virado de pernas para o ar: sua tia Lizbeth tivera uma sria recada; uma ruptura na distribuio de gua de Pine Harbor provocara uma inundao em seu escritrio de advocacia, causando prejuzos incalculveis...
       E agora, para completar, Lara MacEuan estava de volta, em pleno resplendor de seus vinte e quatro anos. Como estava bela! E inclusive parecia dedicar a ele um pouco da ateno que sempre negara.
       Pela primeira vez olhava-o da maneira como uma mulher observa um homem. Isso era mais do que surpreendente... "Na verdade,  desconcertante", Alan pensou, forando-se a manter os olhos fixos na estrada.
       Um pouco mais  frente, j se podia avistar a placa de entrada de Pine Harbor.
       
       
       
CAPTULO II

       A manso dos Crane, construda no estilo vitoriano h mais de um sculo, erguia-se imponente na pequena Pine Harbor, oferecendo uma bela vista para o mar. Havia-a erguido um ancestral dos Crane que, assim como a maioria dos habitantes do local, fora um grande navegador. Chamava-se capito Ezra Crane e tornara-se uma figura lendria em Pine Harbor.
       Nas paredes de pedra, a hera acumulava-se e flores azuis cobriam a fachada da frente, caindo como uma moldura singular ao redor das grandes janelas.
       O interior da casa no era menos impressionante. Decorada com simplicidade e extremo bom gosto, possua uma sala espaosa, tendo ao centro uma grande lareira, mveis de mogno muito antigos, um grande ba que pertencera ao av de Alan e Jason e estantes com muitos objetos recolhidos do mar h tanto tempo: corais de formas e tons variados, conchas, peas de ferro pesado que algum dia haviam pertencido a navios que j no existiam mais.
       Na parede leste, duas grandes bias de vidro esverdeado faziam as vezes de vitrais. Um corredor partia rumo  ala direita da casa, levando  cozinha, copa e sala de jantar.  esquerda, ficavam a biblioteca, um pequeno escritrio e uma sute, agora ocupada pela velha sra. Lizbeth Crane. Uma escadaria de carvalho macio conduzia aos outros dormitrios.
       Circundada por um extenso gramado, jardins e um pomar, a manso vitoriana era uma das mais belas de Pine Harbor. E os Crane eram uma das famlias tradicionais do local, bem como a famlia MacEuan,  qual Lara pertencia.
       Foi com intensa emoo que Lara entrou naquela casa, que conhecia desde a infncia. Era curioso estar ali, depois de tanto tempo, sobretudo porque jamais cogitara voltar. Contudo, uma infinita tristeza a invadiu, no momento em que penetrou no quarto de Lizbeth. Por um instante, ela pensou que no fosse resistir s lgrimas.
       Lizbeth, sua madrinha, a mulher mais surpreendente que j conhecera, possuidora de um dinamismo fora do comum, estava agora reduzida a uma plida figura, os olhos perdidos talvez em algum recanto do passado, o corpo esmaecido apoiado em grandes almofadas.
       Era como se tivesse desistido de viver, Lara pensou com o corao pleno de dor.
       Alan aproximou-se da cama e, tomando entre as suas a mo de Lizbeth, anunciou num tom suave:
       - Tia Liz, veja quem est aqui.
       Por um longo momento, a velha Lizbeth permaneceu como estava. Ento, sem desviar os olhos da janela que deixava entrever um pedao de cu azul, murmurou:
       - Acaso temos visitas, Alan?
       - Sim, querida - ele aquiesceu com uma doura da qual Lara jamais o imaginara capaz. - Alis, trata-se de uma visita muito especial.
       Lizbeth estremeceu e, voltando a face plida para o sobrinho, pediu num tom de splica:
       - Seja quem for, mande-o embora, Alan. Eu... no estou nada bem, voc sabe. No quero ver ningum. Mande-o embora, sim? Seja um bom menino e faa como estou pedindo.
       - Por favor, titia. Ao menos veja quem  - ele insistiu, fazendo um sinal a Lara para que se aproximasse do leito. - Veja, querida...  Lara MacEuan. E veio especialmente para v-la.
       Lentamente, Lizbeth voltou a cabea na direo de Lara. E aos poucos um sorriso insinuou-se em seus lbios plidos.
       - Lara? - repetiu, como se no acreditasse em seus olhos. - Minha pequena Lara...  voc mesma?
       - Sim, querida - ela anuiu, sentando-se na beira da cama. - Sou eu.
       - Oh... - a velha senhora murmurou, com os olhos rasos de lgrimas. - Minha pequena... Finalmente voc voltou para ns.
       Lara apenas sorriu. Com a mo trmula de emoo, tocou aquela face amada, vincada pelo tempo.
       - Sim, madrinha - disse, num tom quase inaudvel. - Estou de volta...
       Era mentira, pois no pretendia demorar-se por l mais do que duas semanas. Porm, naquele momento, sentia-se incapaz de confessar a verdade.
       Pressionando a mo de Lara num gesto de carinho, Lizbeth fitou-a por um longo momento. Seu velho rosto iluminou-se:
       - Oh, Alan, voc ouviu isso? Nossa Lara est de volta  casa a que sempre pertenceu. No  maravilhoso?
       - Sim, titia - ele concordou, surpreso com a rpida mudana operada na velha senhora. -  de fato maravilhoso e... - Voltou-se para Lara e concluiu: - Estou muito agradecido por isso.
       Lara desviou os olhos. De repente, um sentimento de culpa invadiu-a. Como pudera ficar ausente por tanto tempo? Como fora capaz de abandonar sua querida Lizbeth?
       No importava o que Jason lhe fizera. Isso no justificava de modo algum o fato de ter deixado aquela mulher, a quem amava acima de tudo no mundo.
       - Voc vai ficar bem, Liz - ela afirmou, forando um sorriso. - No h nada que eu deseje mais do que v-la novamente com sade. Nada  mais importante do que isso.
       - Est enganada, querida - a velha senhora retrucou, meneando a cabea grisalha. - Mais importante do que meu restabelecimento  sua volta ao lar.
       - Titia... - Alan interveio. - Agora Lara e eu vamos deix-la descansar. Ns... voltaremos depois para v-la, est bem?
       - No diga tolices, rapaz - a velha Lizbeth replicou e sua voz soou mais forte e vigorosa. - J descansei o bastante nos ltimos meses. Sequer sair, v, mas deixe Lara aqui comigo. H tanto tempo que no a vejo...
       - Mas, titia, Lara fez uma viagem cansativa de Los Angeles at aqui. Certamente est ansiosa para tomar um banho e repousar um pouco, antes do jantar.
       A discusso entre ambos continuou, e uma nova enxurrada de lembranas insinuou-se na mente de Lara. Havia quase esquecido o gnio forte e irredutvel dos Crane.
       Aquela gente era parte de sua famlia, de seu corao. E jamais o deixaria de ser, mesmo depois do golpe que sofrer com Jason. S agora ela compreendia que uma parte de si jamais deixara Pine Harbor... Claro, nos ltimos seis anos alcanara um relativo sucesso como redatora de um dos mais famosos comediantes da Amrica, Hap Harrigan.
       Lara podia considerar-se razoavelmente realizada a nvel profissional. Entretanto, nem todo o sucesso do mundo poderia faz-la esquecer o tempo em que vivera com os Crane, da infncia at os dezoito anos, quando quase se tornara a sra. Crane.
       Mas por que recordar aquele momento angustiante? Havia muitas outras lembranas mais belas; uma infncia feliz passada entre os Crane, por exemplo.
       Pois de fato vivera muito mais naquela casa do que em seu prprio lar, j que seus pais, Denise e Willy MacEuan, passavam a maior parte do tempo envolvidos em competies de iates. Eram campees de muitas disputas e viajavam o mundo para participar das corridas, com seu famoso iate Trade Winds. Assim, no lhes sobrava tempo para dedicar a Lara.
       Deixavam-na ento aos cuidados da madrinha, Lizbeth, que a amava como se fosse sua prpria filha. Ali, na manso dos Crane, Lara sempre tivera seu prprio quarto, com roupas e brinquedos que Lizbeth especialmente lhe comprava. Amava-a no apenas pelo fato de ser sua afilhada, mas tambm por pertencer  famlia MacEuan.
       Na mocidade, Lizbeth apaixonara-se por um MacEuan, mas ele morrera um ms antes do casamento, num trgico acidente de barco. Fora um golpe muito forte, do qual Lizbeth jamais se recuperara por completo.
       Agora, aos vinte e quatro anos, Lara podia trazer  mente com incrvel nitidez as imagens de um tempo feliz. Podia recordar-se tambm de Arlene e Michael, pais de Alan e Jason, e era difcil acreditar que ambos j haviam morrido h quase vinte anos, num acidente areo, aps regressarem das frias da Europa.
       - Titia, agora ns vamos sair - Alan disse, finalizando a discusso. - Lara vir v-la depois do jantar. E, se a senhora continuar se portando como uma criana, vou me esquecer de que sou seu sobrinho e dar-lhe umas boas palmadas, ouviu? - O sorriso nos lbios de Alan desmentia a severidade daquelas palavras.
       - Isso so modos de falar com sua tia, rapaz? - Lizbeth retrucou, no mesmo tom. - Est bem, v l, faa como quiser. Mas no prenda Lara por muito tempo com voc. Afinal, ela  minha afilhada e tenho certeza de que voltou por minha causa. Entendeu?
       Alan sorriu.
       - Entendi. Agora, se nos der licena...
       A enfermeira, que at ento se mantivera sentada a um canto, lendo uma revista, ergueu-se para intervir:
       - O sr. Alan tem razo, querida. Alm do mais, est na hora de seu remdio, senhora...
       - No quero remdio nenhum - Lizbeth replicou, aborrecida. - Traga-me apenas o litro de xerez. Quero brindar ao retorno de Lara.
       Alan, Lara e a enfermeira trocaram um olhar de interrogao. Por fim a enfermeira aquiesceu e, dirigindo-se a um velho mvel situado a um canto, retirou uma garrafa de licor e quatro clices.
       - Aqui est, senhora - disse num tom amvel para Lizbeth, que parecia muito satisfeita. - Vamos fazer o brinde.
       Aps o brinde, a enfermeira acompanhou ambos at a porta e comentou, com entusiasmo:
       - Eu mal posso acreditar no que vi. - Sorrindo para Lara, acrescentou: -  incrvel como a sra. Lizbeth transformou-se assim que a viu, senhorita...
       - MacEuan - ela respondeu. - Mas pode me chamar de Lara.
       - Certo, Lara. - A enfermeira cumprimentou-a polidamente. - Prazer em conhec-la. Meu nome  Jane Smith. E quero lhe agradecer por ter vindo. O sr. Alan j me havia dito o quanto voc  importante para Lizbeth. Mas confesso que estou impressionada com o bem que lhe fez.
       - Por favor, Jane, no me agradea - Lara replicou, emocionada. - Considero Lizbeth como minha segunda me e no fiz nada de mais em ter vindo. Na verdade, se eu soubesse, teria chegado antes.
       A enfermeira despediu-se e foi cuidar de Lizbeth. Enquanto caminhavam pelo corredor, Alan voltou-se para Lara. Havia emoo em sua voz, ao dizer:
       - Meu Deus, voc no imagina o quanto estou surpreso. Tia Lizbeth reagiu a sua presena melhor do que eu supunha. Voc operou um verdadeiro milagre, Lara. 
       - H quanto tempo ela est assim?
       - Desde o ltimo Natal, quando teve o primeiro derrame - Alan respondeu com pesar. - Mas h quinze dias teve uma sria recada. Parecia que tinha desistido de viver, compreende?
       - Mas... por qu?
       - Voc sabe, a solido e a angstia so as principais causas das doenas. E Lizbeth anda triste h muito tempo... Os especialistas me disseram que a raiz de seu mal era muito mais psicolgica do que fsica. E agora, mais do que nunca, creio que eles tm razo. - Aps uma pausa, Alan acrescentou: - Acho que eu deveria t-la avisado antes, mas... Bem, eu no tinha certeza se concordaria em vir. E voc sabe por qu...
       - Por favor, Alan - ela o interrompeu, tensa. Estavam agora na sala e Lara sentou-se numa poltrona. - No vamos falar do passado.
       Ele fitou-a com um olhar intenso, antes de concordar:
       - Est bem.
       Teve de fazer um intenso esforo para desviar os olhos daquele rosto delicado, de traos perfeitos, do corpo de curvas insinuantes que gostaria de observar longamente. O bom senso ordenava-lhe que sasse de perto de Lara, e foi o que ele fez.
       Num tom de sbita seriedade, concluiu:
       - Bem, preciso dar um pulo a meu escritrio, mas no vou demorar. Podemos jantar juntos, se voc quiser.
       - Claro - ela aquiesceu, vendo-o afastar-se em direo  porta.
       - Eu... estou feliz por voc estar aqui - disse Alan, antes de sair.
       - Meu Deus, Alan... - ela murmurou, sozinha, na sala silenciosa. - Como voc mudou. Ou ser que... todos ns mudamos?
       
       
       O quarto que Lara ocupou na casa dos Crane era o mesmo que usara na infncia, quando seus pais viajavam durante semanas, deixando-a aos cuidados de Lizbeth. Ali estavam a cama de madeira clara, a penteadeira e duas paisagens marinhas pendentes da parede, que ela conhecia desde os seis anos.
       Presa de intensa emoo, abriu o armrio para guardar as poucas peas de roupa que trouxera... e ali estavam trs vestidos que a prpria Lizbeth costurara, quando Lara era ainda criana. Cobertos com sacos plsticos, perfeitamente conservados, eram uma lembrana viva de sua infncia. Ali estava tambm seu uniforme de escola. E as bonecas, os jogos de armar... Tantas lembranas agora lhe traziam lgrimas aos olhos.
       Os Crane e os MacEuan eram as duas principais famlias de Pine Harbor. Possuam prestgio, dinheiro e respeitabilidade.
       O bisav de Lara, Torquil MacEuan, fizera sua fortuna importando acar e rum. Seu filho continuara o trabalho, e assim o negcio prosperara.
       Lara nasceu cercada de riquezas e privilgios. Seu primeiro choque aconteceu ao descobrir que nem todas as crianas podiam desfrutar essa posio. E o segundo foi o casamento com Jason Crane, que nunca chegou a acontecer...
       Aos cinco anos, Lara j havia compreendido que ele seria seu nico amor. Trs anos e meio mais velho do que ela, Jason era, na poca, um garoto traquinas e incrivelmente belo, capaz de engendrar as brincadeiras mais fantsticas e de enlouquecer os adultos.
       Ao lado de Jason, Lara descobrira as delcias do mar, aprendera a mergulhar, a nadar em vrios estilos e a subir nas rvores para colher as frutas frescas, que certamente tinham um gosto muito melhor do que aquelas que ficavam na fruteira da copa...
       Mas por que recordar tudo isso agora? Por que recordar sua festa de quinze anos, quando Jason a beijara pela primeira vez? Que adiantava pensar no Natal seguinte, quando haviam jurado amor eterno? Haviam combinado que se casariam dali a dois anos, quando Lara completasse os estudos secundrios e Jason conclusse o curso na universidade.
       Foram dois anos de felicidade contnua, com fins de semana inesquecveis, passeios de iate, luares na praia, carcias ousadas e tantas certezas de um futuro certamente muito feliz.
       "Chega!", disse para si mesma, deixando-se cair sobre a cama. O passado nunca mais voltaria. Precisava concentrar sua ateno no presente... Se  que conseguiria sobreviver, pois os prximos quinze dias em Pine Harbor poderiam ser terrivelmente dolorosos.
       
       
       O jantar foi servido no terrao, separado do jardim por uma porta de vidro. Dali, podia-se observar o mar l embaixo.
       "Mais nostalgia", Lara pensou, provando uma saborosa maionese  base de frutos do mar.
       Quantas vezes no se sentara ali com Jason e Lizbeth, nos domingos pela manh, para o caf? E com que pacincia a bondosa Lizbeth suportava as guerras de panquecas que ela e Jason faziam!
       E depois, quando j eram adolescentes, Lizbeth saa discretamente, deixando-os a ss, para que pudessem sonhar e fazer os planos mais loucos para o futuro. Quantas vezes...
       Lara quase nunca encontrava Alan, nesse tempo. Ele j estava na universidade e, mesmo quando vinha para casa, ficava fechado no quarto ou na biblioteca durante dias inteiros.
       Lara pouco se importava. Afinal, seus olhos e seu amor eram apenas para Jason.
       Na verdade, essa era a primeira vez que ela e Alan faziam uma refeio a ss, Lara pensou, provando outro bocado de maionese. Era incrvel, mas de fato sentia-se constrangida na presena daquele homem que h seis anos nem sequer lhe importava.
       Ali estava ela, uma escritora de comdias, razoavelmente bem-sucedida, que sempre se portava de maneira descontrada no contato social. Sentia-se agora totalmente embaraada. Talvez uma boa noite de sono lhe devolvesse o autocontrole.
       - Em que est pensando, Lara? - ele indagou, num tom calmo, servindo-lhe um copo de vinho.
       - Oh... Nada muito importante - respondeu, aps sorver um gole. - Este vinho  delicioso.
       - Mesmo assim, eu gostaria de saber em que voc estava pensando... Isto , se quiser me contar.
       - Bem, eu pensava que esta  a primeira vez que jantamos sozinhos, voc e eu...
       -  mesmo, no? - ele replicou, um tanto surpreso, e sorriu.
        
       - Bem, isso prova que, se uma pessoa viver o suficiente, acabar experimentando de tudo.
       Ali estava de novo uma demonstrao de humor, da qual Lara jamais o julgara capaz.
       Antes que Lara retrucasse, Alan continuou:
       - Mas, mudando de assunto, Lara, quero ter certeza de uma coisa: voc ficar duas semanas mesmo conosco?
       - Sim. E terei de dizer isso a Lizbeth, no momento oportuno.
       - Sem dvida de que sim. Voc encontrar a melhor hora, tenho certeza. - Aps uma pausa, Alan prosseguiu: - No pense que no me sinto feliz por isso, mas h outra coisa que preciso saber.
       - O qu, Alan?
       - Por acaso essa ausncia no lhe causar problemas em Los Angeles? Refiro-me a seu trabalho, naturalmente.
       - Problema nenhum - ela mentiu.
       Na verdade, Lara passara por um srio drama, antes de se decidir a vir. Embora o programa do comediante Hap Harrigan estivesse em recesso de vero, ela estava prestes a iniciar um novo trabalho para a tev, no apenas mais rentvel, mas tambm muito mais interessante a nvel profissional.
       Tratava-se da oportunidade que h muito vinha esperando: uma minissrie com os maiores astros da atualidade que deveria ir ao ar j no prximo outono. Lara iniciara o trabalho h pouco mais de dez dias, quando recebera o telefonema de Alan. Ento, tivera de parar com todas as atividades.
       Embora os produtores do novo programa fossem amveis e compreensivos, tempo sempre significava dinheiro, sobretudo na televiso. Aceitaram a sada de Lara sem causar-lhe complicaes a nvel contratual, pois teriam podido mult-la em muitos dlares. Entretanto, naturalmente no poderiam aguardar que ela retornasse de Pine Harbor. Depois de contratarem outra redatora, Lara pde partir para a Costa Leste.
       Agora, tinha a segunda quinzena inteira de julho pela frente, pois a produo de Hap Harrigan Show s voltaria s atividades em agosto.
       - No se preocupe, Alan - ela repetiu. - No tive problema algum em vir para c.
       - Por que me vem a impresso de que voc no est dizendo a verdade, Lara? - ele replicou, fitando-a atentamente.
       - Perdoe-me - rebateu, num impulso. - Mas creio que no tenho a menor obrigao de lhe dizer nada, Alan!
       - Isso responde a minha pergunta - aquiesceu, baixando os olhos.
       Lara lembrou-se da lista de apelidos que ela e Jason inventavam para Alan: o sr. Sabe-tudo, o sr. Casmurro e tantos outros. Mas agora ela compreendia que no havia, nesse modo de ver de Alan, a menor dose de prepotncia. Havia apenas uma certa dose de tristeza e timidez.
       - Desculpe. Eu no quis ofend-lo - ela confessou, com franqueza. - Mas creio que estou cansada da viagem e, alm do mais, voltar para esta cidade e para esta casa  meio constrangedor...
       - Eu compreendo - ele a interrompeu. - Alis, eu j deveria estar acostumado a ser tratado assim por voc. Nunca foi diferente, no?
       Lembranas... Lara agora recordava-se das muitas peas que ela e Jason pregavam em Alan: punham cola dentro de suas botas de montaria, escondiam seus cadernos e livros, penduravam baldes cheios de gua na copa da rvore sob a qual Alan se sentava para ler, no jardim. Bastava esperar que ele se aproximasse e... o inevitvel acontecia.
       - Eu... fui muito maldosa com voc, no passado - Lara comentou, aps um longo momento. - Ser que pode me desculpar por isso tambm?
       - O que voc e Jason faziam eram apenas brincadeiras comuns de criana. E no tinham culpa se eu possua uma grande vocao para mrtir - acrescentou com um meio sorriso.
       Lara contemplou aqueles dentes perfeitos, o rosto msculo onde os olhos lmpidos e profundos se destacavam.
       "Lmpidos e profundos?", ela se repetiu, em silncio.
       Desde quando comeara a reparar nos olhos de Alan ou em qualquer outra caracterstica daquele homem? Desde poucas horas atrs, apenas. Pois no passado Alan representara apenas um bom alvo para brincadeiras, nem todas inocentes.
       - Se quer saber, eu sempre invejei voc e Jason - Alan confessou, a certa altura. - Vocs tinham uma vivacidade incrvel, uma alegria de viver que me faltava. Eram criativos, encantadores e... Embora deixassem tia Lizbeth furiosa em muitas ocasies, eram os preferidos dela. Sempre foram.
       - No...
       - Por favor... - Alan cortou com um gesto. - No estou me lamentando por isso, compreende? Eu bem que tentei agir como Jason, tantas vezes... Mas tive de entender que nossas personalidades eram diferentes. Enfim, fui obrigado a me aceitar como eu de fato era: tmido, no muito brilhante, no to encantador...
       - Pois eu sempre pensei que voc se julgasse superior a ns - Lara o interrompeu com uma expresso de espanto. - Afinal, voc sempre fazia tudo certo, era o primeiro aluno de sua classe, conseguia uma vaga na universidade sem fazer nenhum esforo, era respeitado e...
       - E terrivelmente infeliz - Alan completou. - Achava que minha timidez era uma espcie de doena, da qual jamais me livraria. Mas quero que saiba que eu admirava voc, Lara. Ainda admiro.
       Ambos fitaram-se em silncio. E Lara foi a primeira a falar:
       - No  incrvel? O que pensvamos um do outro e o que ramos, na verdade... Bem, aqui estamos ns. Voc se tornou um advogado de sucesso, no?
       - De relativo sucesso - ele corrigiu. - Mas no quero falar de mim, e sim de voc. Diga-me, Hap Harrigan  to divertido na vida real quanto na televiso?
       - Nem tanto... - Lara respondeu sem titubear, lembrando-se das acirradas discusses que tivera com Harrigan, quando comeara a trabalhar como redatora. - Como todo gnio, ele  um homem excntrico e difcil de tratar. Mas  um bom profissional, alm de ter um corao generoso, pois j o vi ajudar muitos comediantes em incio de carreira, sabe? S que ele gosta de bancar o duro, no sei muito bem por qu. Enfim, temos nos dado bem, apesar de alguns "acidentes de percurso".
       - E voc pretende continuar trabalhando nesse ramo?
       - Na verdade, meu sonho atual  escrever um livro... Talvez uma novela, ou um romance, ainda no sei ao certo.
       Alan comentou, num tom calmo:
       - O que quer que voc resolva fazer, sem dvida ser um sucesso.
       Ela sorriu:
       - Voc parece confiar mais em mim do que eu mesma. 
       Alan sorriu de volta. A conversa assumia aos poucos um tom de confidencia e isso era por demais agradvel. Na verdade, ultrapassava todas as expectativas que ele alimentara a respeito da vinda de Lara.
       Ali estavam ambos, conversando como dois amigos... Amigos? Bem, era um comeo, afinal.
       E, se essa amizade se transformasse em algo mais profundo, tanto melhor.
       Lara agora voltava a fit-lo daquele modo intenso. O silncio caa sobre ambos, uma tenso inexplicvel pairava no ar. O que fazer, seno continuar ali, controlando a vontade de tom-la nos braos para confessar o que h muito tempo trazia oculto dentro de si?
       Com um misto de satisfao e desconforto, Lara observava o homem a sua frente. Como era possvel que duas sensaes absolutamente contrrias a invadissem ao mesmo tempo? Ela no saberia dizer.
       Entretanto, precisava fazer algo para interromper aquele momento confuso. Disse por fim:
       - Acho que devemos ver Lizbeth agora.
       - Como quiser, Lara - ele concordou, erguendo-se. 
       "Tudo o que voc quiser", Alan acrescentou, em silncio.
       
       
       
CAPTULO III

       Quando Alan e Lara entraram no quarto de Lizbeth, encontraram-na comodamente sentada numa velha poltrona de couro, junto  janela, contemplando o mar. No alto a lua crescente, circundada por estrelas, dava um toque especial  noite de vero.
       - Tia Lizbeth, no acha que est exagerando um pouco? - Alan indagou, preocupado.
       A enfermeira explicou:
       - Ela insistiu em sentar-se e achei que no havia mal algum nisso.
       - Sentem-se vocs tambm - Lizbeth ordenou, com um leve sorriso - e parem de me tratar como se fosse uma criana. J disse que estou bem e...
       - Mas, titia, ainda hoje cedo a senhora mal conseguia levantar! - Alan replicou.
       - Acontece que agora estou bem, rapazinho. E assunto encerrado.
       Lara, repetindo um gesto que sempre fazia quando criana, acomodou-se no tapete aos ps de Lizbeth, que sorriu.
       - Vou ficar boa em poucos dias, minha querida, e sabe por qu?
       - Por qu, Liz? - Lara indagou, docemente, recostando a cabea no colo da velha senhora.
       - Porque voc voltou para ns. Definitivamente.
       Alan e Lara trocaram um olhar inquieto e ele, aps hesitar por alguns instantes, decidiu que chegara a hora de contar a verdade a Lizbeth. No seria justo alimentar-lhe falsas esperanas.
       - Tia Liz, h algo que a senhora precisa saber... - comeou, sentando-se na beira da cama. -  que... Bem, Lara no veio para ficar, entende?
       O sorriso no rosto da velha senhora desvaneceu-se.
       - Como assim, Alan?
       - Eu vim apenas visit-la, querida - Lara interveio. - S passarei duas semanas aqui. Depois regressarei a Los Angeles, para reassumir meu trabalho.
       - Ento...  s uma visita?
       - Sim, Liz. Mas, assim que tiver uma folga ou um feriado prolongado, virei v-la de novo. Eu prometo.
       - Ouviu isso, Alan? - Lizbeth indagou, lanando ao sobrinho um olhar ansioso.
       - Eu... j sabia, titia.
       - Pois ento temos de fazer alguma coisa para impedir que Lara se v.
       - Minha querida... - Alan replicou, num tom compreensivo. - No podemos fazer nada. Lara precisa cuidar de sua vida e...
       - E se ela descobrir que sua vida sempre foi aqui, a nosso lado? - Lizbeth argumentou, entusiasmada. - Vamos fazer um plano...
       Lara sorriu, comovida, e pressionou levemente a mo da velha senhora, que continuava:
       - Vamos mostrar a Lara as riquezas que ela esqueceu. Do que era mesmo que ela mais gostava? Deixe-me ver... Ah, sim! Adorava velejar. Por que no a leva para um passeio amanh, Alan?
       - Se Lara concordar...
       - Claro que concordo - ela o interrompeu. - Alis, eu adoraria.
       - Ento est combinado. Amanh vocs dois iro velejar e eu ficarei aqui, observando-os da janela. Ser uma grande alegria para mim. Vocs dois, como nos velhos tempos...
       Lara suspirou. A pobre Lizbeth provavelmente confundira os fatos j passados. Ela e Alan nunca haviam velejado juntos. Era com Jason que ela saa para o mar, nos tempos em que namoravam. Contudo, no fazia mal... Tudo o que contribusse para a alegria de Lizbeth ela faria com o maior prazer.
       
       
       O dia amanheceu radiante e, aps ficarem um pouco com Lizbeth, que estava muito disposta naquela manh, Lara e Alan saram em direo  marina de Pine Harbor para o passeio de veleiro. Ela usava um vestido branco de alas sobre o mai vermelho que trouxera. Ele vestia short azul-claro e uma camisa branca de malha. 
       Caminhavam pelas ruas tranqilas de Pine Harbor, parando a todo momento para cumprimentar os conhecidos, que recebiam Lara com muita surpresa e o carinho que sempre lhe haviam devotado.
       Ambos mantinham dentro de si a certeza de que estavam indo velejar a pedido de Lizbeth, mas desfrutavam um prazer imenso pela companhia um do outro.
       Quando chegaram ao per, Lara no pde conter uma exclamao de alegria. Sobre as guas azuis, vrias embarcaes oscilavam suavemente, como a compor um estranho bale. Chalupas, escunas, veleiros, iates... Era um espetculo fascinante, do qual Lara jamais se esquecera.
       Curiosa, ela contemplou as embarcaes, perguntando-se qual dos barcos da famlia Crane seria escolhido para o passeio. E foi com uma expresso surpresa que viu Alan aprontar uma pequena chalupa, que ela bem conhecia, mas que jamais esperaria tornar a ver.
       Tratava-se do Sorriso de Lara, um presente que ela ganhara do av, no dia em que nascera.
       Segundo a histria que seu pai lhe contava, o av fora visit-la na maternidade e ento comentara que o sorriso daquela bela criana merecia batizar um barco.
       Meses depois ele apresentara, orgulhoso, o presente que construra com suas prprias mos. O Sorriso de Lara era uma embarcao branca, circundada por uma faixa azul, contendo apenas um mastro. Fora sua herana para a neta que jamais iria conhec-lo, pois ele morreria um ano mais tarde.
       Lara e Jason haviam velejado muito naquela embarcao. No entanto, isso fora antes da falncia dos MacEuan, quando os pais de Lara, aps perder fortuna e prestgio, leiloaram todos os barcos que possuam. Isso acontecera h cerca de cinco anos. E Lara no voltara a Pine Harbor para ver o leilo. S que jamais poderia imaginar que Alan tivesse comprado o Sorriso de Lara.
       Alan entrou na chalupa, deixou na cabine uma cesta que trouxera, contendo bebidas e sanduches, e voltou para ajudar Lara a embarcar.
       - Venha - convidou, estendendo-lhe a mo. 
       Lara continuou imvel.
       - Como... Como foi que o Sorriso de Lara veio parar em suas mos?
       - Ora, que pergunta... Eu o comprei no leilo, h cinco anos.
       - Mas por qu? Os barcos que vocs possuem so muito superiores, em qualidade, a esta chalupa - ela argumentou, ainda emocionada.
       - Bem, o fato  que j no se fazem barcos como este. No se esquea de que, nos meados dos anos sessenta, a fibra de vidro ainda era uma novidade no ramo de embarcaes. E este modelo  uma das ltimas peas feitas a mo que ainda existem. Trata-se de uma bela pea de madeira, muito engenhosa e super-segura.  um barco raro, hoje em dia.
       - Eu nunca havia pensado nisso - ela comentou, por fim, aceitando a mo que ele lhe oferecia.
       Com um sentimento de alvio, Alan comeou a soltar as amarras da embarcao. Felizmente Lara acreditara na explicao improvisada que lhe dera. Alis, no era de todo mentira. De fato o Sorriso de Lara era uma bela embarcao, mas no fora isso que o movera a arremat-lo no leilo, e sim uma razo puramente sentimental... da qual Lara jamais desconfiaria.
       Com um misto de admirao e surpresa, Lara viu-o soltar as velas com agilidade e dirigir a embarcao com uma presteza da qual nunca o julgara capaz. Com que ento o carrancudo Alan Crane a surpreendia uma vez mais? Por quantas vezes ele o fizera, nas ltimas vinte e quatro horas?
       O Sorriso de Lara deslizava suavemente sobre as guas de Long Island Sound, rumo s vrias pequenas ilhas do arquiplago.
       Sentada na proa da chalupa, Lara deliciava-se com o vento que lhe despenteava os cabelos negros e longos, presos num rabo-de-cavalo.
       Os fantasmas do passado no a perturbavam. Ela apenas desfrutava o prazer de estar ali, experimentando aquela sensao de liberdade, cercada de gua por todos os lados, vendo a terra afastar-se aos poucos... Sempre adorara velejar, mas aquele momento era especial: o cu azul, o mar colorido aqui e ali por outros veleiros, o contorno das ilhas ao longe e... a presena marcante de Alan Crane.
       Um bando de golfinhos veio acrescentar um brilho diferente  paisagem, j por si to magnfica. O sol, iluminando os golfinhos, fazia-os reluzir por um segundo antes de desaparecerem de novo nas guas profundas e azuis.
       Em silncio, Alan e Lara contemplaram a passagem dos golfinhos. Foi um momento da mais pura emoo.
       - Voc quer pegar o timo um pouco? - ele ofereceu, minutos, depois, aps colocar a chalupa na rota da ilha Minawin.
       Ela replicou, insegura:
       - J faz tanto tempo que no dirijo um veleiro...
       - Essas coisas a gente no esquece - ele a encorajou, com um sorriso. -  mais ou menos como andar de bicicleta, sabe?
       - Ser?
       - Pode apostar que sim.
       - Tudo bem. - Lara ergueu-se de um salto. - Vamos ver se  mesmo...
       Assumiu o timo e, momentos depois, j dirigia o Sorriso de Lara sem receio algum.
       - Voc tinha mesmo razo.  o tipo de coisa que a gente nunca esquece.
       Recostado numa espreguiadeira, Alan observava a mulher a sua frente. Podia olh-la  vontade, pois Lara, de costas para ele, mantinha-se profundamente concentrada na rota a seguir. E como estava bela! Sempre a achara bonita, quando jovem. Mas agora Lara parecia ter adquirido uma beleza diferente, mais profunda e encantadora. Tornara-se uma mulher.
       Em seus sonhos mais loucos e inconfessveis, Alan imaginara o dia em que poderia estar a ss com Lara MacEuan.
       Agora, o sonho tornava-se realidade. E era muito melhor do que ele pensara. Como desejava tocar aquele corpo esguio e bem-feito, afundar o rosto nos cabelos longos e macios, tocar com os lbios aquela boca sensual, a pele rsea do rosto, os seios firmes e delicados! Contudo, nada no mundo o faria perder o controle. S o fato de ter Lara ali, a seu lado, j era por demais gratificante. Um gesto precipitado poria tudo a perder.
       A cerca de duzentos metros da ilha Minawin, Lara desligou o motor da chalupa e, relembrando um velho costume que tinha com Jason, sugeriu:
       - Que tal se apostssemos at a praia?
       Alan sorriu em concordncia e tirou a camisa, exibindo o trax musculoso e bronzeado. Em seguida desfez-se do short, ficando s de calo de banho. Extasiada, Lara contemplou aquele corpo msculo. Outra surpresa... Sempre imaginara que Alan tivesse um fsico desajeitado, sem msculos. E de repente defrontava-se com um homem bem diferente. Uma emoo estranha a invadiu. H quanto tempo no se sentia assim, diante de um homem?
       Depois de Jason, jamais voltara a se interessar por algum. Livrava-se com elegncia das propostas dos colegas de trabalho, que a princpio a haviam assediado. Depois, vendo que nada conseguiram, tinham se resignado a trat-la apenas como a profissional competente que era. O prprio Hap Harrigan, j com cinqenta anos, no se mantivera indiferente aos encantos de Lara e, nas primeiras semanas em que trabalharam juntos, tentara uma aproximao. No entanto, Lara, numa conversa franca, dissera-lhe que estava interessada apenas em trabalhar com ele.
       - Como quiser, baby - Hap respondera, sem esconder uma ponta de decepo. - Se algum dia mudar de idia, me avise.
       - No vou mudar de idia, sr. Harrigan - ela afirmara num tom delicado mas firme - e peo que no volte a insistir no assunto, seno terei de procurar outro emprego.
       - Se  assim, ento pode ficar certa de que no importunarei mais - Hap assegurara, num tom de exagerado espanto. - Mas, diga-me, o que faz uma garota bonita como voc ficar indiferente aos homens?
       - Esse  um assunto de ordem ntima, sr. Harrigan - Lara replicara. Um assunto chamado Jason Crane...
       E agora o irmo mais velho de Jason, com que ela nunca se importara, provocava-lhe uma sensao que h muito Lara no experimentava. Desejo? Desde quando julgara que Alan fosse capaz de despertar-lhe esse tipo de emoes?
       Fechando os olhos por um momento, Lara tentou afastar essa sensao incmoda. Talvez o mar, o vento e a beleza da paisagem a tivessem tornado vulnervel demais... S poderia ser isso.
       Alan comentou, lanando um olhar rpido para o belo corpo de Lara, no momento em que ela tirara o vestido.
       - Voc amadureceu. - O mai vermelho, de linhas arrojadas, colava-se ao corpo da garota que se transformara em mulher. Alan quis desviar os olhos, mas no conseguiu. Recortada contra o cu azul, Lara estava mais bela do que nunca. - Voc mudou muito... - ele repetiu.
       - O tempo opera mudanas em todos ns - Lara replicou com uma calma que estava longe de sentir.
       A tenso entre ambos aumentava a cada instante e, por um momento, o pnico a invadiu. Forando um sorriso, props:
       - E ento, vamos l? - convidou, apontando a ilha Minawin. - Vou contar at trs... Est pronto?
       - Sim - ele concordou, aproximando-se da beirada da chalupa. - Mas antes vou lanar a ncora.
       Mais uma vez, Lara admirou-se da destreza que Alan demonstrava. A ncora foi lanada, a corda que a prendia foi se desenrolando lentamente, at parar: a ncora atingira o fundo.
       - Vamos l. - Alan colocou-se a seu lado.
       - Um... Dois... Trs!
       Saltaram para as guas azuis e comearam a nadar at a ilha. Logo de incio Alan tomou a dianteira, e assim se manteve at o final, quando alcanaram a praia. Ofegantes, deitaram-se na areia e Lara foi a primeira a falar:
       - Voc ganhou. Mas tinha uma vantagem...
       - Ora, no me diga. - Ele sorriu, erguendo-se sobre os cotovelos. - E que vantagem foi essa?
       - Voc est em melhor forma do que eu. Sabe h quanto tempo no nado? H pelo menos dois meses.
       Num impulso, Alan acariciou-lhe os cabelos negros e longos. Estava pouco se importando por vencer a corrida. O prazer de t-la ali, to prxima, era maior do que tudo o que poderia desejar.
       - A vida em Los Angeles deve ser muito agitada, no? - indagou, aps alguns momentos.
       - "Agitada"  uma palavra muito leve para definir a correria em que tenho vivido nos ltimos anos - ela respondeu, pensativa, os olhos fixos no mar a sua frente.
       - E essa correria tem valido a pena, Lara?
       - O que posso dizer? Gosto de meu trabalho, ganho o suficiente para levar uma vida confortvel... Sim, acho que vale. Mas quando me defronto com toda essa natureza... - ela continuou, com um gesto largo - francamente me pergunto se faz mesmo algum sentido passar doze horas por dia num estdio de tev, com ar-condicionado, sem saber se l fora faz sol ou se chove...
       - Quanto a mim, creio que no saberia viver longe da natureza. Jamais me acostumaria  correria das grandes metrpoles. Diga-me, voc no teve problemas para se adaptar  rotina de Los Angeles? L  to diferente daqui...
       - A princpio eu s queria ocupar todo meu tempo para no pensar em... Voc sabe.
       O silncio voltou a cair entre ambos.
       "A sombra de Jason Crane...", Alan pensou. "Ser que nunca mais vamos nos livrar disso?"
       - Ns no devemos permitir que as dores do passado nos privem dos bons momentos do presente, Lara - ele disse com voz suave.
       Para sua surpresa, Lara sorriu.
       - Tem razo. O dia est magnfico e no quero estrag-lo com recordaes tristes. Que tal uma revanche at o Sorriso de Lara?
       Alan concordou e ambos se atiraram na gua. A meio caminho, porm, Alan desviou a rota e comeou a nadar costeando a ilha, num perfeito estilo clssico. Lara acompanhou-o e nadaram por muito tempo, at alcanarem uma outra praia, menor, o recanto preferido de Alan.
       - Estou morto de cansao - ele comentou, atirando-se na areia macia.
       - Voc desistiu da corrida - ela brincou, sentando-se ao lado de Alan. Com um sorriso provocante, indagou: - Por qu? Estava com medo de perder a revanche?
       - Sempre detestei qualquer tipo de competio. Prefiro nadar por prazer.
       - Acho que voc tem razo, Alan - ela concordou, aps um momento de reflexo.
       Impossvel evitar uma comparao entre Jason e seu irmo mais velho, Lara pensou. Com Jason, tudo era motivo para competir: corridas pela praia, disputas para ver qual dos dois conseguia nadar por mais tempo e em maior velocidade, quem conseguia manobrar um barco contra o vento... Tantas lembranas. No entanto, de repente, Lara descobria um novo modo de desfrutar a natureza, a companhia de Alan, que a surpreendia a cada momento. Um novo mundo descortinava-se para ela. Um novo homem, talvez? Contudo, para que pensar sobre isso, se tudo estava indo to bem?
       A tarde ia pelo meio. Nuvens fofas como algodo formavam-se no cu e Lara recordou o tempo em que saa para passear com Lizbeth, quando ambas ficavam adivinhando formas nas nuvens. Era uma brincadeira que a encantava, mesmo agora, quando adulta.
       - Veja! - ela exclamou, apontando o cu. - Aquela nuvem... No lhe parece um drago? 
       - Onde? - Alan indagou, comovido com a alegria infantil que Lara demonstrava.
       - Ali,  direita daquela outra nuvem mais esguia... Viu?
       - Perto daquela guia? - ele replicou, apontando uma outra nuvem, cujo formato lembrava o de um pssaro com asas abertas.
       - Sim... - ela aquiesceu, inclinando o rosto para observar melhor - mas eu diria que se trata de um condor, e no de uma guia.
       - Pode ser... Mas voc h de concordar que aquela outra, mais  esquerda,  um pnei alado.
       - Claro! - Lara replicou, deliciada com a brincadeira. - No  um pnei alado comum e sim Pgaso, o cavalo grego do Olimpo.
       - Mas o que Pgaso veio fazer aqui?
       - Teremos de perguntar a ele...
       Os rostos estavam agora muito prximos, e ambos trocaram um olhar significativo. Um bando de gaivotas cruzou a praia, indo pousar mais adiante.
       Com a respirao suspensa, Lara compreendeu que ele ia beij-la. E, para seu total espanto, no tinha a menor vontade de impedi-lo.
       - Alan... - foi s o que conseguiu dizer. Tudo aquilo era uma grande loucura, e a sensatez ordenava-lhe que interrompesse aquele momento o mais rpido possvel, por outro lado, uma voz mais poderosa ordenava-lhe que no, que apenas fechasse os olhos para receber os lbios de Alan contra os seus.
       O bando de gaivotas ergueu vo. As aves estavam assustadas e, com um olhar de relance, Alan e Lara compreenderam por qu: um grupo de adolescentes corria pela praia, em meio a ruidosas exclamaes de alegria... Uma alegria que interrompeu o beijo, quebrando o momento de magia que haviam conseguido criar.
       Com um misto de decepo e raiva, Alan e Lara observaram o grupo passar correndo por eles, rumo s pedras situadas na curva da ilha, a uma centena de metros.
       Atrs dos rapazes, algumas garotas corriam, carregando cestas de piquenique. O grupo se acomodou nas pedras, ignorando Alan e Lara, que apenas permaneceram em silncio.
       - A juventude... - ele comentou, por fim, tentando controlar a raiva que o invadia. - Bem, esto na idade de fazer barulho...
       Lara concordou, com um gesto de cabea. Algum dia, fizera parte de um grupo de ruidosos adolescentes, liderados por Jason. Naquela poca, no pensava que a vida poderia ser desfrutada de maneira tranqila, sem tanta agitao.
       Agora, porm, com a experincia de seus vinte e quatro anos, descobria outras riquezas. Entretanto, toda essa compreenso no ajudava a diminuir a frustrao de ter perdido um momento com Alan. Um momento singular e nico, que talvez nunca mais se repetisse.
       - Poderamos voltar ao barco - ele props, aps alguns minutos. - A no ser que queira continuar aqui...   
       - Com todo esse barulho? - ela retrucou, apontando com certa irritao o grupo de rapazes e moas. - No,  melhor voltarmos.
       Nadaram de volta at o Sorriso de Lara, onde fizeram uma boa refeio, com os sanduches que Alan trouxera. O clima de encantamento voltou a envolv-los. E, assim, iniciaram a viagem de volta.
       A tarde caia, quando aportaram no per. O sol se punha num grande estilo de cores, que tingiam o horizonte de raios alaranjados. Sentados no per, assistiram ao crepsculo, antes de retornar  casa dos Crane.
       Num gesto natural, Alan tomou entre as suas as mos de Lara e, assim, comearam a caminhar. No se falavam, mas um intenso bem-estar os invadia. E, de repente, como que por um passe de mgica, o mundo parecia ter adquirido um colorido novo, um sentido maior.
       - Vou tomar um banho antes de ver Lizbeth - disse Lara, assim que entraram no hall da velha manso. - Estou ansiosa para contar a ela o maravilhoso passeio que fizemos.
       - Fico feliz por voc ter gostado - Alan replicou, tentando conter a emoo que sentia. - Foi... Foi muito bom para mim tambm, Lara.
       - Imagino que sim...
       - E eu fico mais feliz ainda, por vocs.
       Ambos viraram-se ao mesmo tempo, na direo da voz de Lizbeth, que, sentada no sof da sala, recostada em almofades, exibia o mais belo de seus sorrisos.
       
       
       
CAPTULO IV

       Constrangidos como adolescentes flagrados em alguma atitude proibida ou reprovvel, Alan e Lara contaram a Lizbeth sobre o passeio. Excluram, naturalmente, os momentos de ternura e atrao mtua que haviam compartilhado.
       No entanto,  velha Lizbeth no passou despercebido que algo de especial comeava a acontecer entre a afilhada e o sobrinho. Se bem os conhecia, nenhum dos dois daria o primeiro passo. Por orgulho ou timidez, seriam capazes de sufocar o sentimento recproco que comeava a nascer. Portanto, um toque de incentivo no cairia mal...
       - Quer dizer ento que fizeram um timo passeio - ela comentou, com entusiasmo. Ambos concordaram com um gesto de cabea e Lizbeth continuou: - O que acham de repetir a dose, depois de amanh?
       - No sei... - Alan discordou, com cautela. - Velejar  muito bom, mas nem por isso deixa de ser cansativo. Talvez Lara prefira descansar, nos prximos dias.
       Antes que Lara pudesse responder, Lizbeth replicou:
       - Mas, querido, quem foi que falou em velejar? Estou propondo que voc a leve  Feira Anual Beneficente, no sbado. Voc sabe, os Crane sempre estiveram presentes nessa feira e eu adoraria ir, mas no posso. Portanto, preciso de algum para representar a famlia.
       - A Feira anual Beneficente! - Lara exclamou, levando a mo  fronte. - Eu tinha esquecido completamente.
       De fato, tratava-se de um dos acontecimentos mais importantes de Pine Harbor e da regio. Gente de toda a parte acorria para visitar a feira, que tinha incio no sbado e avanava at a noite de domingo. Grupos de estudantes, senhoras, scios do clube de iatismo, enfim, todos contribuam de um jeito ou de outro para o sucesso do evento. Na velha praa de Pine Harbor, as barracas da quermesse se enfileiravam, oferecendo uma grande variedade de atraes. O dinheiro arrecadado destinava-se a instituies de caridade, e tudo isso fazia da festa uma grande sensao.
       Quando criana, Lara adorava ir a feira, juntamente com Jason e Lizbeth. Sonhava com o momento de andar no carrossel, na roda-gigante e em outras atraes que havia.
       - Naturalmente - a voz de Alan interrompeu-lhe as recordaes - ser um prazer acompanhar Lara  Feira Anual. Isto , se ela concordar.
       - Mas claro que sim - Lara aquiesceu, de imediato.
       - timo - Lizbeth assentiu, com ar divertido. - E lembrem-se, crianas, vocs vo representar as famlias mais tradicionais de Pine Harbor. Portanto, comportem-se.
       - No se preocupe, querida - Lara afirmou, no mesmo tom. - Vou ficar de olho em Alan e no o deixarei sair de linha.
       -  mesmo? - ele replicou, bem-humorado. - Pois saiba que farei o mesmo com relao a voc, srta. MacEuan.
       A conversa foi interrompida pela chegada da enfermeira, que veio avisar Lizbeth da hora de tomar o remdio.
       
       
       A Feira Anual estava to animada como nos velhos tempos, Lara constatou, ao chegar. No coreto da velha praa, uma banda tocava velhas canes folclricas, animando os visitantes. Um grande palanque fora armado, logo  entrada, e l se encontravam o prefeito e outras autoridades locais. Grupos de estudantes passeavam, trajando roupas tpicas. Aguardavam o momento de se apresentar no coreto. Do mesmo modo como Lara h tempos fizera eles encenariam a fundao de Pine Harbor e a vida dos antigos conquistadores.
       Bandeirolas coloridas enfeitavam as barracas de jogos, onde tambm eram vendidos refrescos e muitos quitutes. Lara e Alan dirigiram-se a uma delas, a fim de tomarem um suco de frutas, pois o calor estava quase insuportvel.
       Vrios conhecidos dos velhos tempos vieram cumprimentar Lara, entre eles Mona e Terry, com quem ela havia estudado durante anos, no curso secundrio.
       - Lara MacEuan! - Terry exclamou, dando-lhe um abrao caloroso. - Enfim voc resolveu nos visitar.
       - Terry! - Ela sorriu para o homem que, durante a adolescncia, fora companheiro de aventuras de Jason. - H quanto tempo! - Ento se voltou para Mona. E voc, como vai?
       - Levando a vida, como se diz por a. E ento, o que me diz da vida em Los Angeles, agora que se tornou famosa?
       - Famosa? - Lara repetiu, divertida. - Nem tanto.
       - Ora, no seja modesta - Terry replicou com um largo sorriso. - Voc  nosso dolo, sabia?
       Lara, que sempre se embaraava diante de elogios, tentou mudar o rumo da conversa:
       - Mas e quanto a vocs, o que andam fazendo? 
       Alan explicou:
       - Terry e Mona so mdicos pediatras e dirigem uma das melhores clnicas da regio.
       - No diga! - Lara sorriu, verdadeiramente surpresa.
       - Voc, como sempre, est exagerando, Alan - Terry rebateu, com um sorriso modesto. -  verdade que abrimos uma clnica, mas...
       Alan continuou:
       - E ganharam recentemente um prmio na Sociedade Mdica da Nova Inglaterra, pelo trabalho que vm desenvolvendo h trs anos, desde que se casaram.
       - Quer dizer que... esto casados! - Lara exclamou, ainda mais surpresa, - Que maravilha!
       - Escute aqui, Alan - Terry interveio -, se voc continuar com esses elogios disparatados, serei obrigado a contar a Lara que voc  um dos melhores advogados do pas.
       Alan riu.
       - Est vendo, Lara? E ele ainda diz que eu sou exagerado.
       - Leve-a para nos visitar, qualquer dia desses, Alan - pediu Mona. - Quero que Lara conhea nossa filhinha.
       - Fico feliz por vocs - Lara afirmou com sinceridade. 
       Era incrvel, pois Terry e Mona tinham sido dois adolescentes rebeldes, que freqentemente causavam problemas na escola e na pacata vida social de Pine Harbor. Agora eram pessoas adultas, responsveis, com carreiras brilhantes.
       Terry indagou:
       - Por quanto tempo voc pretende ficar aqui, Lara?
       - Tirei quinze dias de frias. Depois, voltarei para a correria de Los Angeles.
       - Ento, no deixe de nos visitar, est bem?
       - Eu irei, sim.
       - E quanto quele assunto, Alan... - Terry comeou, hesitante. - Ns precisamos conversar, no?
       - No se preocupe com isso, rapaz. J lhe disse que s depois de um ano  que voltaremos a falar no assunto.
       O casal se despediu, depois de lanar a Alan um sorriso de agradecimento. A ss com ele, Lara comentou:
       - Os professores sempre acharam que Mona e Terry no teriam nenhum futuro. Eles eram impossveis, lembra?
       - Eu sempre soube que ambos possuam uma grande capacidade. Mas confesso que fiquei surpreso com o trabalho que vm desenvolvendo. Foi por isso que apostei neles.
       - Apostou? - Lara repetiu, sem compreender. - Como assim?
       -  um segredo, mas posso cont-lo a voc... - ele respondeu, abaixando a voz. - Eu financiei a compra de vrios equipamentos para a clnica, mas no quero que me devolvam nada, antes de se firmarem definitivamente na regio.
       "Alan Crane", ela pensou. "Voc acaba de me causar outra surpresa!" De fato, ela jamais imaginara que Alan se interessasse por ajudar algum. No entanto, apenas disse:
       - Voc  um homem bom, Alan.
       - Apenas no gosto de ver talentos como o de Terry e Mona desperdiados apenas por falta de capital. No h nenhuma bondade nisso.
       - H, sim - ela afirmou com veemncia.
       - Prove seu suco de frutas, Lara - ele retrucou, deixando bem claro que no desejava falar mais sobre o assunto.
       Com uma surpresa que crescia a cada instante, Lara descobriu que Alan se tornara uma pessoa popular na cidade. Era muito querido.
       Um grupo de professores veio agradecer-lhe pela doao de livros para a biblioteca da escola local. E um outro grupo, formado em sua maioria por artistas da regio, veio avis-lo de que as obras de restaurao de um antigo palacete, que no futuro seria transformado em centro cultural, estavam indo de vento em popa.
       - Daqui a dois meses no mximo poderemos inaugur-lo - disse um rapaz de culos, que Lara no conhecia.
       - Que bom, Jack - ele respondeu com um meio sorriso. - Se precisarem de alguma coisa, no deixem de me avisar.
       - Obrigado, Alan. Se no fosse voc...
       - Ora deixe estar - ele o interrompeu, tomando Lara pelo brao. - Com licena, vamos dar uma volta pela feira.
       E ento Alan tornou-se uma espcie de benfeitor local! Lara pensou, enquanto se deixava conduzir para um passeio entre as barracas.
       Estavam justamente se dirigindo a uma barraca de doces, quando ouviram atrs de si uma voz feminina:
       - Alan, querido. Eu sabia que o encontraria por aqui. 
       Voltando-se, Lara se deparou com uma garota ruiva, muito atraente, trajando um provocante vestido de vero. Alan saudou com um largo sorriso:
       - Ol, Carol. - Ento, voltando-se para Lara, acrescentou: - Esta  Caroline Sinclair, uma das mais jovens advogadas de minha empresa. Carol, esta  Lara MacEuan.
       A moa cumprimentou-a:
       - Muito prazer, Lara.
       - Como vai? - Lara respondeu, observando atentamente aquela jovem, que se dirigia a Alan com uma familiaridade inusitada.
       - Muito bem, obrigada - Caroline respondeu, e ento se virou para Alan. - Escute, voc no tem aparecido em nosso novo escritrio e precisamos tratar do caso Johnson, que deve ir ao tribunal nos prximos dias.
       - Oh, sim, faremos isso na segunda-feira logo pela manh. Mas, diga-me, como vai, Carol?
       - Muito bem, querido. Agora j me adaptei ao novo local de trabalho. Escute, ser que sua ausncia tem algo a ver com o estado de sade de tia Lizbeth?
       - Em parte, sim. Mas ela est melhor.
       Caroline Sinclair sorriu. E Lara teve de admitir que a jovem era de fato muito, muito bonita.
       - Oh, fico feliz por isso. Tia Lizbeth  uma pessoa maravilhosa. A propsito, ela gostou do po de centeio que lhe mandei na semana passada?
       - Ela adorou, Carol. E pediu para agradecer. Alis, voc precisa visit-la com mais freqncia.
       Um mal-estar crescente apossava-se de Lara, enquanto Alan e Caroline conversavam. Por qu?
       Ela nem queria pensar na resposta. Mas a intimidade com que ambos se tratavam a atingia como um duro golpe. Estaria sentindo cime de... Alan?
       "Que absurdo!", disse para si mesma esforando-se para prestar ateno novamente  conversa.
       Caroline dizia:
       - Ento, est certo. Ns nos veremos na segunda-feira pela manh. Poderamos almoar juntos, talvez... No  uma boa idia?
       - Sem dvida que sim, Carol.
       Aps beijar as faces de Alan e lanar um sorriso polido na direo de Lara, a estonteante Caroline Sinclair afastou-se.
       Com um misto de raiva e angstia, Lara deixou-se conduzir por ele. E, quando Alan perguntou-lhe se desejava sentar-se para descansar um pouco, ela concordou com um gesto de cabea. Escolheram um banco de pedra,  sombra de um velho carvalho, longe do alarido da feira.
       Por mais que tentasse ocultar o que sentia, Lara no conseguiu sorrir quando Alan fez alguns comentrios bem-humorados sobre o evento. Ento, julgando-a enfastiada, ele disse, com uma ponta de culpa:
       - Ser que pode me perdoar?
       - Perdoar... - ela repetiu, sem entender. - Por qu? - "Pelo fato de sua intimidade com Caroline Sinclair me chocar terrivelmente?", acrescentou em pensamento.
       - Por obrig-la a vir  Feira Anual. Imagino que voc deve estar acostumada  sofisticao de Los Angeles e que esta festa provinciana lhe parea terrivelmente chata.
       - Como assim, Alan?
       Ele sorriu, embaraado.
       - Ora, no  preciso ser polida comigo, Lara. Sei perfeitamente o quanto est se aborrecendo, aqui. Basta olhar para voc para ter certeza.
       - Est enganado, Alan. No se trata disso.
       - Eu sei. Trata-se de fazer a vontade de tia Lizbeth, no  mesmo? At a, posso compreender e at admiro voc por isso. Mas no precisa ser gentil comigo, me fazendo acreditar que gosta de estar aqui... Alis, tenho certeza de que a ltima coisa que voc faria seria vir  Feira Anual. Depois de tanto tempo! E justamente aqui, neste lugar, do qual voc deve ter tantas recordaes...
       - Errado, Alan - ela replicou, sem coragem de encar-lo. - Voc no pode sequer imaginar como estou me sentindo.
       - Ao contrrio, sei perfeitamente como voc se sente - ele discordou com veemncia. E havia uma ponta de tristeza em sua voz, ao completar: - Voc guarda memrias terrveis daqui, e no tente negar este fato.
       - Mas...
       Ignorando o aparte de Lara, ele continuou:
       - Alis, foi por isso que voc deixou Pine Harbor, h seis anos. Pensa que no sei disso, Lara?
       Ela encarou-o e fitou por um longo momento os profundos olhos azuis de Alan... Ento, a lembrana de um fato ocorrido h muito tempo assomou-lhe  mente com a rapidez de um raio.
       Era incrvel como nunca mais se lembrara de uma tarde, j longnqua, em que estava sentada naquele mesmo banco, sentindo-se triste e abandonada! A mente de Lara voou para longe, para trs, para o dia em que completara dez anos de idade. 
       Jason e Lizbeth tinham ficado na casa dos Crane, preparando a festa de aniversrio para Lara. Seus pais haviam prometido encontr-la na feira, e para l ela se dirigira, logo aps o almoo.
       Depois de esper-los durante horas, Lara concluiu que eles a haviam esquecido. Com certeza tinham se empolgado com o dia maravilhoso que fazia e no quiseram retornar do passeio de veleiro, que iniciaram ao amanhecer.
       Contendo o choro, Lara sentou-se no bando de pedra,  sombra do velho carvalho, esperando ainda que eles pudessem chegar a qualquer momento. Mas no ntimo j sabia que no viriam, que s chegariam  noite, como sempre com muitos pedidos de desculpas.
       J estava acostumada a isso, mas naquela tarde sentia-se particularmente triste, sobretudo porque era o dia de seu aniversrio. E ela continuou l, olhando com desgosto para o vestido novo que Lizbeth lhe fizera, sentindo as lgrimas que agora fluam, embora as limpasse com as costas das mos, com um misto de mgoa e raiva.
       Ento, como que por encanto, Alan surgiu a sua frente, enxugando-lhe as lgrimas com um leno que tirara do bolso da camisa. Em seguida sentou-se ao lado dela.
       Aconchegando-a de encontro ao peito, ele comeou a contar-lhe uma histria de princesas e fadas, roubando Lara da tristeza em que mergulhara, mostrando-lhe um mundo cheio de fantasias.
       Lara, que jamais reparara muito no mais velho dos Crane, foi aos poucos parando de chorar e, no final, esboou um sorriso.
       Ento Alan tirou do bolso um pequenino broche e o estendeu para ela. Em seguida, tomando-lhe delicadamente a gola do vestido, pregou-o ali.
       - Um presente de aniversrio para voc, Princesa - disse, acariciando-lhe os cabelos. - Agora vamos para casa. - Ento, para tornar completa a felicidade de Lara, seus pais chegaram e a tomaram nos braos.
       - Nossa queridinha esperou muito tempo, no foi? Perdoe-nos, amor, mas acabamos nos atrasando... Venha, vamos nos divertir um bocado.
       Lara, mal se contendo de tanta alegria, afastou-se com eles. E, quando se voltou para despedir-se de Alan, ele havia desaparecido na multido.
       Talvez porque seus pais houvessem interrompido aquele momento, a memria de Lara deixara-o esquecido por tantos anos. E s agora ela se lembrava de tantos detalhes...
       - Escute... - Alan continuou, trazendo-a de volta  realidade - sei que temos evitado o nome de Jason at agora, mas o fato  que no se pode fugir disso o tempo todo. No  justo que fique se torturando com a lembrana de tudo o que voc e meu irmo passaram juntos. Alm do mais, eu...
       - Alan! Quer me ouvir, por favor? - Lara o interrompeu, com firmeza. -  claro que me lembro de Jason, sobretudo porque eu e ele no perdamos nenhum dia da Feira Anual. Mas quero que saiba que no  nele que estou pensando, neste momento.
       - No - Alan indagou, franzindo a testa. - Por que insiste em me enganar, Lara? Eu no estou doente, como tia Lizbeth e no preciso de mentiras piedosas.
       Ignorando a provocao contida naquelas palavras, Lara prosseguiu:
       - Estou me lembrando do dia em que completei dez anos de idade... E de como eu estava triste, sentada aqui neste bando, quando voc chegou e me fez parar de chorar. E s me contou histrias bonitas. Estou me lembrando do presente que me deu...
       Alan fitou-a em silncio. E levou um longo momento para responder:
       - Eu... No pensei que voc ainda se lembrasse disso.
       - Para ser franca, s agora me recordei daquele dia.  incrvel como a memria nos prega peas, apagando por tantos anos coisas to importantes para traz-las  tona assim, de repente, quando menos se espera. Obrigada pelo que fez naquela tarde, Alan.
       - Ora, voc merecia aquilo e muito mais - ele replicou, fitando-a com um olhar intenso.
       - Voc me abraou e me beijou, me consolando com palavras to doces... Mas ento meus pais chegaram e, quando procurei por voc... para agradecer...
       - Eu j tinha me afastado - ele completou. - Sempre detestei a forma displicente com que seus pais a tratavam.
       - De qualquer forma, isso j no importa - Lara retrucou, com pesar. - Meu pai se suicidou logo aps a falncia. E minha me nunca mais se recuperou. Mas no quero falar deles agora... Quero apenas pensar naquele momento feliz que tivemos juntos, h quase quinze anos.
       Comovido, Alan murmurou:
       - Eu beijei seus cabelos, assim... - Tocou-lhe os cabelos com os lbios. - No foi?
       Havia um toque de desejo naquela carcia, e com a voz rouca de emoo Lara respondeu:
       - No, Alan. No foi assim.
       - E certamente tambm no foi assim tampouco. - Ele tocou-lhe os lbios num beijo prolongado.
       Lara nada pde fazer, a no ser corresponder com um ardor do qual nunca se julgara capaz.
       No coreto, a banda encerrava a audio com Moon River, mas nenhum dos dois ouviu...
       
       
       
 CAPTULO V

       Lara custou muito a dormir naquela noite. Fazia um calor intenso, mas no era este o motivo que a impedia de conciliar o sono. A lembrana dos lbios de Alan contra os seus, o constrangido silncio em que ambos haviam mergulhado na volta para casa, a despedida embaraada no saguo do casaro... Tudo lhe voltava  mente.
       A mulher segura, independente e forte que era Lara MacEuan estremecia agora, e tudo por um simples beijo. Por qu? Como era possvel que em to poucos dias Alan se tornasse to importante para ela? No podia ceder a essa paixo, mas tampouco conseguia pensar com clareza, agora que seu mundo se transformara num caos completo.
       Jason, que lhe ocupara a mente e o corao desde criana, Jason, que se transformara numa lembrana amarga nos ltimos anos, de repente tornava-se um fantasma, um ser longnquo e inofensivo, j no a fazia sofrer.
       Contudo Alan... O que dizer de Alan Crane? Que ele se tornara um homem atraente, encantador, forte e envolvente, capaz de abalar o mundo slido que ela construra para si? Claro, essa era a pura verdade, embora parecesse absurdo.
       No entanto, era verdade tambm que Alan devia ter algum outro tipo de envolvimento com Caroline Sinclair alm do profissional. Atraente e bem-sucedido como era, na verdade ele devia ter no mnimo uma fila de mulheres bonitas  disposio.
       Por que, ento, Alan se interessaria por Lara? Com certeza estava apenas querendo ser gentil, levando-a a velejar ou passear, sobretudo porque tia Lizbeth assim o desejava.
       Depois de muito refletir, Lara decidiu que o melhor a fazer era sufocar as sensaes que Alan lhe provocara. Felizmente, dentro de poucos dias estaria de volta a Los Angeles e  vida solitria, mas segura, que levava. L era seu lugar.
       Alm do mais, j se desiludira com um homem, certa vez. E no suportaria repetir a experincia. O fato de Alan mostrar-se gentil e mesmo t-la beijado no significava em absoluto que estivesse interessado em algo mais profundo.
       S ento Lara deu-se conta do quanto estava carente... No se permitira, nos ltimos seis anos, nenhum tipo de envolvimento amoroso. E agora, o que acontecia?
       Uma simples carcia, um beijo e algumas palavras doces a abalavam desse modo. At mesmo uma colegial trocaria beijos com um amigo, num momento de emoo, e depois esqueceria o fato. Ou ao menos no faria nenhuma fantasia sobre isso.
       Ao passo que ela ficava ali, durante horas, recordando cada detalhe, tocando os lbios com a ponta dos dedos, sentindo ainda o calor de Alan contra si.
       - Chega - ela se ordenou, em voz alta. - Voc no vai querer se ferir por uma segunda vez... Ou vai?
       A resposta era no. Claro que no. Tudo o que tinha a fazer era continuar tratando Alan de modo gentil, mas a uma distncia razoavelmente segura.
       Imersa nesses pensamentos perturbadores, Lara por fim adormeceu, ansiosa para que aqueles dias passassem logo.
       Felizmente Lizbeth estava se recuperando, e assim Lara poderia partir mais tranqila.
       
       
       Nos dias que se seguiram, a velha Lizbeth continuou a demonstrar melhoras espantosas. O prprio mdico, que sempre afirmara que a doena de Lizbeth era causada por fatores de ordem psicolgica, mostrava-se surpreso. Seu rosto plido adquirira uma cor mais saudvel. E Lizbeth j comeara a fazer breves passeios pelo jardim, acompanhada por Lara ou pela enfermeira.
       Na tera-feira, Alan voltou mais cedo do escritrio e encontrou Lara em companhia de Lizbeth, na varanda da sala de estar.
       - Voc chegou bem a tempo de tomar um clice de vinho conosco, antes do jantar - disse Lizbeth, com um largo sorriso.
       - Ora, titia, que falta de juzo! - ele replicou, beijando-lhe carinhosamente os cabelos. - A senhora sabe muito bem que no deve tomar lcool. - Ento lanou um olhar intenso para Lara. - Como vai?
       - Bem - ela respondeu, afastando o pensamento incmodo de que Alan passara o dia ao lado de Caroline Sinclair, no escritrio. - Eu estava justamente dizendo a Lizbeth que ela no deve beber.
       - Ora, um pouquinho s no faz mal - a velha senhora retrucou, divertida. - Agora, Lara querida, seja uma boa menina e nos sirva um bom branco californiano. Vamos, antes que a chata da enfermeira resolva aparecer.
       Sem outra sada, Lara obedeceu. Simplesmente no conseguia negar o que quer que fosse para Lizbeth. No entanto, Alan ainda insistiu:
       - Acha que est direito a senhora se portar desse modo?
       - Que modo? - Lizbeth replicou, com exagerada inocncia.
       - Com essa falta de juzo.
       - Rapaz, quando lhe digo que estou bem, pode acreditar. O que no est direito  voc deixar Lara aqui, sozinha nesta casa, sem um pingo de divertimento. Por que no a levou mais para passear?
       - Querida!, Alan trabalhou o dia inteiro e deve estar cansado - Lara afirmou com cautela. - Alm do mais, eu no fico sozinha. Tenho voc para me fazer companhia.
       - Companhia de gente velha no faz bem aos jovens - Lizbeth rebateu, com a firmeza habitual. Em seguida voltou-se para Alan. - E ento? Por que no a leva para jantar no River? Depois vocs poderiam danar um pouco, sei l, fazer qualquer coisa... O trabalho no  tudo, Alan.
       Ele sorriu.
       - De acordo, tia Liz. E, se Lara concordar, eu terei um prazer imenso em...
       - Por favor - ela o interrompeu. - No quero incomod-lo - acrescentou, estendendo-lhe um copo de vinho. 
       Alan agradeceu com um gesto de cabea.
       - J lhe disse que ser um prazer, Lara...
       - Ora, ora... - disse Lizbeth, recebendo de Lara um copo com apenas dois dedos de vinho. - Vocs no vo ficar trocando gentilezas a noite toda, no ? Vamos tomar este vinho e depois tratem de se aprontar.
       Em silncio, os trs terminaram a bebida e, quando Alan e Lara saram para se vestir, Lizbeth sorriu para si.
       - Essa mocidade no sabe aproveitar a vida... Se eu no lhes der um empurrozinho... 
       - O que est dizendo, senhora? - indagou a enfermeira, que acabava de chegar do jardim com algumas flores que comeou a dispor num vaso.
       - Nada... Eu apenas pensava em voz alta, s isso.
       - E desobedecia s ordens do mdico, no ? - a enfermeira replicou, tomando-lhe gentilmente o copo das mos.
       - Ei, o que est pensando? Eu no bebi nada, apenas um golinho que Alan e Lara me ofereceram. Voc sabe, eu detesto ser grosseira e realmente no pude recusar...
       - Acredito piamente, senhora - a enfermeira respondeu com um sorriso. - Piamente - repetiu com ironia.
       - Voc pode ser uma grande enfermeira, Jane... Mas por vezes se comporta de um modo impertinente, sabe?
       - E a senhora no fica atrs.
       - Ora, cale-se - Lizbeth retrucou, virando-se na direo da janela. - Tenho coisas importantes em que pensar e estou cansada de ser tratada como uma criana.
       - Ento pare de se portar como uma.
       Lizbeth no respondeu. Uma esperana crescia dentro dela. Uma esperana que tinha tudo a ver com Alan e Lara. Seria mesmo possvel?
       
       
       O trajeto at o River, um dos restaurantes mais sofisticados da regio, transcorreu num silncio constrangido. Desde a tarde de sbado, Lara tentara evitar ao mximo o contato com Alan. Optara por fazer suas refeies junto com Lizbeth, para que ele no se sentisse obrigado a convid-la para jantar. E o fato de Alan sair bem cedo para o escritrio auxiliara o arranjo.
       A verdade era que a presena dele continuava a provocar-lhe um sem-nmero de emoes, e todas perturbadoras. Portanto, continuava achando prudente manter-se a distncia, para no se ferir uma vez mais. Dentro de poucos dias retornaria a Los Angeles, e ento tudo voltaria  normalidade.
       Mantendo os olhos fixos na estrada, Alan tentava conter a tenso que o dominava. Lara estava muito bonita, num conjunto de saia e blusa de cor creme, com delicados bordados na gola e nas mangas.
       Alan sentia que era difcil ficar com ela por algumas horas sem perder o controle. No podia imaginar o que Lara havia sentido, desde sbado, quando a beijara.
       O clima entre ambos tornava-se cada vez mais tenso, e por fim Alan comentou:
       - As coisas mudaram muito, no?
       Lara enrubesceu violentamente. O momento to temido quanto ansiado chegara de repente. Alan abordaria agora o que ocorrera no sbado, na Feira Anual, e ela simplesmente no conseguiria resistir.
       E depois, o que aconteceria?
       No poderia, de modo algum, ligar-se quele homem. Tinha uma vida para levar em Los Angeles, uma carreira para defender. E, mais do que nunca, no podia se expor a uma segunda decepo amorosa, pois tinha certeza de que dessa vez no se recuperaria... jamais!
       - As coisas mudaram muito... - ele repetiu, certo de que Lara no o tinha ouvido. - No lhe parece?
       - Como assim? - ela indagou, num sussurro.
       - Olhe s... com um gesto ele apontou a paisagem ao redor - quantas casas foram construdas, desde o tempo em que voc saiu daqui. No  surpreendente?
       - Sim - ela respondeu com um misto de decepo e alvio. 
       Como era possvel sentir, ao mesmo tempo, duas emoes to contraditrias?
       "Eu hei de ser sempre a mesma idiota", disse para si mesma, voltando o rosto para a estrada. "Alan fala da paisagem e eu j penso que... Ora, deixe estar!"
       A noite prometia ser difcil. E estavam apenas no comeo.
       O River, situado a pouco mais de dez quilmetros de Pine Harbor, era um restaurante construdo em forma de barco, no alto de uma pequena elevao.
       Por incrvel que pudesse parecer, Lara nunca fora at l com Jason, embora houvessem planejado faz-lo algumas vezes. No entanto, o fato era que o ambiente sofisticado do River no os atraa muito na poca. Eram muito jovens e preferiam o clima descontrado e ruidoso das lanchonetes e dos cafs.
       Tomando uma alameda rodeada de rvores,  esquerda da rodovia, Alan alcanou o topo da elevao e estacionou em frente ao restaurante. Entregou as chaves ao manobrista e conduziu Lara gentilmente pelo brao, em direo  entrada.
       - O matre aproximou-se para cumpriment-lo. Com um polido movimento de cabea saudou Lara.
       - Sr. Crane,  um prazer v-lo aqui. E ento, onde preferem sentar-se?
       - No tombadilho - Alan respondeu. - Est bem para voc, Lara?
       - Claro que sim.
       O "tombadilho" era o terrao, de onde se podia divisar uma bela paisagem: o mar, as luzes de Pine Harbor, o atracadouro onde os barcos oscilavam com suas luzes e bandeirolas coloridas. Sentaram-se e o matre trouxe pessoalmente as garrafas de bebidas.
       - Que tal um drinque, Lara? - Alan props.
       -  uma boa idia - ela concordou.
       Estava mesmo precisando relaxar, sobretudo agora, frente a frente com Alan, que a fitava com aqueles olhos azuis e parecia desnud-la, adivinhando-lhe os mais ntimos pensamentos.
       - Um martni seco - ela pediu, por fim.
       - Certo - o matre aquiesceu. - E para o senhor, o de sempre?
       - Sim, um scotch.
       Lara perguntou-se com quem Alan costumava ir ao River, pois tudo indicava que o fazia com freqncia. Afinal, o matre o tratava como se fosse um fregus habitual.
       Com Caroline Sinclair, talvez? Ou... com quantas garotas mais?
       Irritada consigo, ela afastou esses pensamentos incmodos. J que no pretendia envolver-se com Alan, por que ficar se torturando com dvidas? Ele era um homem livre e tinha todo o direito de sair com quem bem entendesse.
       - O matre voltou com os drinques e o cardpio de pratos. Lara pediu a Alan que escolhesse o jantar, e logo depois o matre afastou-se com o pedido: maionese de frango e uma garrafa de Undurraga, um vinho chileno que Lara apreciava muito.
       - Vamos fazer um brinde - disse Alan, erguendo o copo. - A Lizbeth... Que ela continue mais saudvel e feliz a cada dia.
       - A Lizbeth - Lara secundou, e os copos tilintaram um contra o outro.
       Sorveram um longo gole e ento Alan voltou a falar:
       - Pode imaginar o quanto me sinto feliz com a recuperao de tia Lizbeth?
       Lara sorriu.
       - Claro que posso, pois me sinto da mesma forma. Nossa, quando a vi, no dia em que cheguei, fiquei to deprimida! E, no entanto, ela est cada vez melhor.  quase um milagre, no acha?
       - Um milagre chamado Lara MacEuan - ele sentenciou, sorrindo-lhe de volta.
       - Ora, no exagere. Quantas vezes terei de lhe dizer que detesto elogios?
       - No se trata de elogio e sim da mais pura verdade. Voc sabe que a surpreendente melhora de tia Liz se deve totalmente a sua vinda, no?
       Lara sorveu um segundo gole, antes de responder:
       - Eu no diria isso, Alan.
       - Pois eu, sim.
       - A repentina melhora de Lizbeth foi simplesmente o resultado de uma combinao de vrios fatos.
       - Agora fui eu que no entendi.
       - Quero dizer que ela j estava se recuperando, desde antes de minha chegada. E que a alegria que sentiu ao me rever ajudou um bocado. Se eu no tivesse vindo, sem dvida isso ocorreria, s que talvez de maneira mais lenta.
       - No  verdade. Alis, voc sabe que no.
       - Quer parar de exagerar, por favor? 
       Num tom srio, Alan replicou:
       - Olhe, pode ter certeza de que no estou exagerando. O fato  muito simples. Voc  o tipo de pessoa que possui uma grande energia, um entusiasmo contagiante que faz bem a todo mundo, compreende?  um encanto raro, quase mgico...
       Lara interrompeu o gesto de levar o copo aos lbios. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. No podia acreditar que Alan fosse capaz de tamanha ternura. 
       Foi com voz trmula que indagou:
       - Que tipo de encanto... mgico?
       Ele fitou-a por um longo momento, antes de responder:
       - Voc sabe muito bem do que estou falando.
       - Francamente, eu no sei mesmo.
       - Oh, acredito realmente que voc saiba... que voc sempre teve conscincia do magnetismo que possui.
       - No - ela negou, emocionada. - Nunca pensei nisso antes.
       - De qualquer modo, Lara... - ele continuou. E um tanto hesitante tomou-lhe a mo entre as suas. - Voc sempre exerceu um mgico fascnio sobre tia Liz... E sobre outras pessoas tambm.
       Era Alan, agora, quem precisava de mais um gole para relaxar, pois no conseguia acreditar que aquilo tudo fosse real. Ento, estava dizendo a Lara tudo o que guardara durante anos? Estava tendo essa coragem, e sua voz nem sequer tremia?
       - E quanto a essas... outras pessoas... - ela indagou com a voz embargada de emoo - quem so?
       - Pois ... - Ele tentou sorrir. - Quem seriam?
       Atnita, Lara olhava-o sem compreender. O momento tornava-se cada vez mais pungente, e um medo inexplicvel crescia dentro de si.
       - Quer falar de maneira clara por favor, Alan? Eu... no sei ler pensamentos, compreende?
       Ele sorriu:
       - Estou vendo que no sabe mesmo, Lara... Estou vendo que no.
       O matre aproximou-se com o jantar, interrompendo a conversa que se tornava to emocionante quanto constrangedora.
       Ambos saborearam a maionese em silncio por algum tempo, mas o requinte do prato despertou comentrios. E dali a pouco conversavam de modo mais descontrado.
       A certa altura, Alan pediu a Lara que falasse mais sobre seu trabalho como redatora de tev e foi sem muito entusiasmo que ela afirmou:
       - O trabalho  bom... gratificante em vrios nveis.
       - Voc diz isso sem muita nfase - ele comentou, perspicaz. - Devo deduzir ento que a rotina de uma roteirista no  to emocionante como parece s pessoas leigas?
       - Nem tanto. Mas tem suas compensaes, naturalmente. Alm do mais, no posso reclamar. Trabalho em minha rea, que  escrever. Nem todas as pessoas trabalham no ramo de que gostam.
       - Mas pelo visto voc j est entediada com isso, no?
       - s vezes me aborreo, sim, pois sonho com a possibilidade de escrever um livro. No necessariamente algo cmico. Alm do mais, sinto falta de outras coisas...
       - Por exemplo...
       - Sei l, coisas mais importantes como... amigos, famlia, enfim...
       - Lara... - Alan replicou suavemente, inclinando-se para ela. - 	Voc sabe que sempre ter uma famlia, aqui, em Pine Harbor.
       - Eu sei que sim.
       - Sabe mesmo? Voc compreende de verdade que ser sempre parte de nossas vidas?
       "Nossas vidas?", Lara repetiu em pensamento. 
       O que, exatamente, Alan estava tentando lhe dizer? Afastando o prato, ela o encarou.
       - Eu jamais imaginei que pudesse fazer parte de sua vida, Alan - disse, em voz baixa.
       Afinal, pelo que podia lembrar, Alan sempre fizera questo de ignor-la. No s a ela, mas tambm a Jason.
       - Voc sempre fez parte de minha vida - ele respondeu com muita calma. - S que sempre esteve muito ocupada com outras coisas para perceber.
       Lara estremeceu. Uma emoo intensa a invadia, uma vontade de sorrir de felicidade, mesclada a um impulso quase irresistvel de chorar.
       Alan agora afastava o prato e, debruando-se sobre a mesa, pressionava-lhe levemente as mos.
       - Por favor - ela pediu baixinho -, o que est tentando me dizer?
       Alan suspirou.
       -	 inda no compreendeu, Lara? Voc sempre foi algum especial para mim - afirmou, e um profundo alvio o invadiu. Pronto! Conseguira finalmente dizer o que sufocara durante anos. Finalmente!
       Fosse pelo vinho branco, fosse pela emoo do momento, Lara sentiu-se flutuar. Que tipo de sensao era aquela? Felicidade, talvez?
       - E ento? - ele indagou, e havia ansiedade em sua voz. - No vai me dizer nada?
       -  bom... - ela murmurou. - Quero dizer,  muito bom ouvir isso.
       Estranhamente sua voz soava calma, embora seu corao pulsasse acelerado. Ento ela era algum especial para Alan? Especial at que ponto?
       -  muito bom? O que quer dizer, Lara? Significa que est contente por ouvir isso? - Alan indagou, e agora a insegurana o invadia.
       No podia, de modo algum, agir como um colegial inseguro e apaixonado, mas o fato era que estava se portando exatamente assim.
       - Contente? - ela repetiu. - Eu diria que  mais do que isso. Estou profundamente emocionada por saber que voc, ao contrrio do que eu pensava, gosta de mim.
       - Se gosto? - Ele sorriu. - Querida, eu tambm diria que se trata de algo mais do que gostar.
       - O que... o que quer dizer com isso, Alan? 
       Aps um longo momento, ele props:
       - No seria melhor se fssemos danar um pouco?
       - Como quiser, Alan... - ela concordou, docemente. - Mas voc no respondeu...
       - Teremos tempo de sobra para falar desse assunto... Para falar de ns - Alan retrucou com a voz rouca de emoo.
       Precisava mesmo de uma pausa, ou acabaria perdendo o controle ali mesmo. E no suportaria se Lara o rejeitasse.
       Fora precipitado? Ou no? Havia uma srie de dvidas que o assolavam, mas logo que se acalmasse encontraria um modo de continuar aquela conversa difcil.
       Em seus trinta e dois anos de vida, ele conhecera vrias mulheres, com quem mantivera breves romances. Entretanto, nunca houve problemas com nenhuma delas, j que no as amava de fato. Embora algumas lhe despertassem ternura e respeito, os relacionamentos no iam muito alm da simples atrao fsica.
       No entanto, com Lara era diferente. A experincia, a maturidade e a segurana de homem atraente, bem-sucedido na vida e nos negcios nada valiam quando se tratava de Lara MacEuan
       Foi com um gesto tenso que Alan estendeu ao matre o carto de crdito. Um velho fantasma do passado o perturbava agora: o medo de ser inbil, desajeitado como o fora nos tempos de rapaz.
       E, dessa vez, no poderia errar. No com Lara MacEuan, ou poderia perd-la para sempre. J a perdera uma vez para Jason. A vida, por algum milagre inexplicvel, a colocara de novo em seu caminho.
       Era sua segunda chance. E no poderia falhar!
       
       
       
CAPTULO VI

       A Vinnie's Blue Grotto era ama casa noturna situada a poucos quilmetros do restaurante River. A iluminao, muito tnue, emprestava ao ambiente um toque romntico. Uma orquestra de Nova Orleans, que j se apresentava por l h quase um ms, estava fazendo um sucesso estrondoso com suas selees de msicas romnticas.
       Sucessos de Nat "King" Cole, Earl Grant e outros cantores famosos eram tocados com maestria pela pequena orquestra, situada a um canto, num pequeno tablado junto  pista de dana.
       Havia poucos casais por ali. Lara e Alan escolheram uma mesa junto a uma grande janela de vidro, de onde podiam contemplar a lua cheia, que se destacava, soberana, contra o cu de vero.
       A noite convidava aos sonhos mais loucos,  nostalgia, a doces esperanas. Alan pediu licores e, chegando mais perto de Lara, enlaou-a pela cintura.
       Uma onda de calor intenso a invadiu. A voz da sensatez dizia-lhe que estava de novo trilhando um territrio perigoso, onde poderia ferir-se irremediavelmente.
       Contudo, Lara, pela primeira vez, rechaou essa voz, que no momento lhe parecia incmoda, absurda. No queria pensar em nada, no queria nem mesmo ouvir as advertncias da razo. Tudo o que desejava naquele instante era continuar assim, aconchegada contra o corpo de Alan, deliciando-se com aquele contato e com o leve torpor provocado pelo licor de amndoas, de que tanto gostava.
       No dia seguinte, talvez voltasse a ser a mulher independente de sempre. Mas... no dia seguinte!
       Por ora nada mais importava, seno os acordes suaves das canes, a proximidade daquele homem que ignorara por tanto tempo. Afinal, tudo estava acontecendo de modo to espontneo, simples e natural...
       Alan tomou-a pela mo e conduziu-a  pista, onde alguns casais danavam.
       - Eu no sou muito bom danarino - ele murmurou, enlaando-a pela cintura -, mas vamos tentar.
       - Tambm no dano muito bem - ela respondeu, deixando-se conduzir por Alan, aos acordes de At the End.
       Entretanto, apenas alguns minutos se passaram para que ambos descobrissem uma harmonia de movimentos, uma leveza que parecia arrebat-los para longe de si. Uma louca alegria lhes ditava os movimentos.
       - Voc dana maravilhosamente - ele murmurou.
       - Acho que saber danar , antes de tudo, um estado de esprito - Lara afirmou, apoiando o rosto contra o peito de Alan.
       Recordava agora uma outra noite, j longnqua, quando tambm danara com ela no baile de formatura. Como estavam tensos e distantes, ento! Tudo to diferente de agora, quando lhe bastava o prazer daquele contato para sentir-se feliz.
       Os corpos colados, os beijos de Alan em seus longos cabelos negros, as mos suaves contra suas costas... Tudo isso provocava em Lara uma sensao de elevar-se a um mundo diferente, onde s as emoes contavam. E ela se permitia, pela primeira vez em tantos anos, o relaxamento.
       - Lara... - ele disse baixinho.
       - O que foi? - ela indagou, no mesmo tom.
       - O que est fazendo comigo, Lara?
       - Como?
       - Todo essa magia que se desprende de voc... Eu nunca me senti assim antes...
       - Oh, Alan...
       - O modo como voc acaba de dizer meu nome... Diga de novo, querida.	
       Ela sorriu, docemente.
       - Alan... Alan Crane.
       - Eu sempre sonhei com isso, mas jamais julguei que fosse possvel acontecer. E no entanto...
       Emocionado, Alan no concluiu a frase. Apenas estreitou a garota ainda mais contra o peito. E Lara abandonou-se nos braos dele.
       A orquestra j no tocava. Os pares j haviam abandonado a pista, mas Alan e Lara continuavam danando, embalados pelo som de outra msica, talvez mais poderosa.
       Esquecidos do mundo ao redor, ambos continuavam a deslizar suavemente pela pista vazia. E s depois de algum tempo perceberam que os ltimos freqentadores deixavam o bar. Os msicos j haviam guardado os instrumentos e algumas luzes j se apagavam.
       - Meus Deus, h quanto tempo estamos danando? - ela indagou, como se despertasse de um longo sonho. - Veja, o bar j vai fechar.
       Alan deixou algumas notas de dinheiro sobre a mesa e saiu com Lara para a noite de vero. Uma brisa suave soprava, brincando nos cabelos dela.
       Passearam em silncio por algum tempo, de volta ao restaurante, pois Alan havia deixado o carro l, no estacionamento. Caminhavam felizes como dois jovens namorados.
       Tudo era belo, tudo fazia sentido. O mundo ganhava de repente uma nova dimenso. Estavam a poucos passos do restaurante quando Alan, incapaz de conter por mais tempo o desejo que o consumia, tomou Lara nos braos e beijou-a ali mesmo.
       A princpio, os lbios apenas se tocavam, numa carcia fugaz. Mas em seguida veio um beijo ardente, impetuoso, cheio de ousadia. Assim terminava a noite, que agora parecia completa.
       
       
       Durante o trajeto de volta, porm, Alan manteve-se distante e imerso em seu prprio mundo. O clima de tenso voltava a formar-se entre ambos. Uma tenso diferente do desejo...
       Por que?, Lara se perguntava, confusa, sem coragem de iniciar uma conversa que talvez pudesse esclarecer tudo. Aps refletir por alguns instantes, preferiu respeitar o silncio de Alan e por isso manteve-se calada.
       No entanto, quando no hall do casaro dos Crane Alan despediu-se com um cumprimento seco, ela no suportou mais a situao.
       - Escute, voc no pode me deixar assim, sem nenhuma explicao - disse, num tom de splica, segurando-o pelo brao. - Eu... acaso fiz ou disse algo que o tenha ferido?
       - Ainda no - ele respondeu, apoiando  parede. 
       Estava mais belo do que nunca, e Lara teve de se conter para no se atirar nos braos dele uma vez mais.
       - Ento, por favor, me diga o que est sentindo - ela pediu, num tom de splica.
       Sem uma palavra, Alan abraou-a e acariciou-lhe longamente os cabelos. Se pudesse mant-la sempre assim, junto a si, se pudesse ter certeza de que no a perderia jamais!
       Afastando-a delicadamente, ele tomou-lhe o rosto entre as mos e havia mgoa em sua voz, ao dizer:
       - Voc sabe que daqui a alguns dias estar de volta a Los Angeles...
       - Sim, mas o que isso tem a ver conosco, Alan?
       - Tudo a ver, querida - ele respondeu, com um sorriso amargo.
       - Quer, por favor, ser mais claro, Alan?
       - Voc no compreende? Daqui a poucos dias estar de volta  vida que escolheu e que tanto significa para voc. E eu no poderei fazer nada para impedi-la. Alis, mesmo que pudesse, no o faria.
       - E ento... Ainda no compreendo aonde quer chegar.
       -  realidade, querida. Voc tem seu mundo particular, sua carreira, e tudo isso a faz feliz. Voc deve ter amigos e... - ele relutou, antes de concluir - e provavelmente um homem especial em sua vida.
       - No tenho ningum - ela retrucou, simplesmente. - No h homem algum em minha vida.
       Ele fitou-a com uma expresso atnita. Ento sorriu, incrdulo.
       -  difcil acreditar nisso. Alis, eu diria que  impossvel.
       - Por qu? - ela replicou, chocada.
       Alan estaria duvidando de suas palavras? Era essa a espcie de confiana que ele dizia devotar-lhe? E por que, afinal, estavam gastando tanto tempo com aquela conversa absurda, quando podiam estar se beijando, trocando palavras doces e carcias?
       Por que ele lhe falava da obrigatoriedade de retornar a Los Angeles, justamente agora? Por que tinha de lembrar-lhe isso? Ele bem poderia abra-la uma vez mais, em vez de faz-la sofrer...
       - Naturalmente, deve ter havido outros homens em sua vida. E deve existir algum, agora, que lhe seja especial. Por que no deveria? Voc  uma mulher adorvel, sensvel, inteligente e bonita. No, Lara, no consigo, embora desejasse, acreditar no que est dizendo.
       - E quem lhe d tamanha certeza de que h algum em minha vida? - ela indagou com amarga ironia. - Uma bola de cristal, talvez?
       - Eu realmente no precisaria de uma bola de cristal para deduzir algo to bvio, querida.
       Lara encolheu-se, como se acabasse de ser atingida por um duro golpe. Seu corao, que nas ltimas horas pulsara de pura alegria, contraia-se agora num compasso de mgoa.
       Sua voz soou trmula, ao responder:
       - Se  mesmo assim que voc pensa, ento no temos nada mais a nos dizer, Alan.
       - Receio que no.
       Lentamente, Lara voltou-se e caminhou em direo s escadas, rumo a sua sute.
       Nada mais restava a fazer. A noite, que at ento fora to rica em emoes, transformava-se de repente num pesadelo infernal. O que dizer a um homem que se recusava a aceitar a verdade?
       - Lara, espere... - ele pediu, mas Lara j no o ouvia.
       Subindo os degraus de dois em dois, as lgrimas escorrendo pelo rosto, ela s precisava ficar sozinha para desabafar a mgoa que ameaava sufoc-la.
       
       
       Estranhamente, na noite seguinte, ao voltar do escritrio, Alan agiu como se nada de mais houvesse acontecido.
       "Talvez seja por causa de Lizbeth", Lara pensou, considerando que ambas estavam sentadas no jardim quando ele chegou.
       - Boa noite, rapaz - Lizbeth saudou o sobrinho com um largo sorriso. - Lara me contou que o passeio de ontem foi magnfico.
       Alan lanou um rpido olhar para Lara e entendeu de imediato a mensagem sem palavras que ela lhe enviava. No podiam, de modo algum, aborrecer a velha Lizbeth. Por isso ela nada dissera sobre o desfecho triste da noite anterior.
       - De fato, tia Liz, passamos bons momentos ontem  noite - ele afirmou, num tom de entusiasmo forado.
       - Fico feliz por vocs dois. Bem, agora vou me recolher. Vocs devem estar ansiosos para sair de novo, no?
       Lara e Alan trocaram um olhar tenso. Ele foi o primeiro a se recuperar.
       - Sinto, muito, tia Liz, mas tive um dia exaustivo no escritrio hoje e estou muito cansado.
       A velha Lizbeth replicou com um olhar de censura:
       - No  a mim que voc deve pedir desculpas, querido, e sim a Lara. Vocs, jovens de hoje, so muito molengas, sabe?
       - No faz mal - Lara interveio, temendo que a situao ficasse ainda pior. - Deixemos isso para outro dia.
       - Certo - Alan concordou, rapidamente. - Agora com licena. Vou tomar uma ducha.
       - Esse menino est agindo de forma esquisita, no lhe parece, Lara querida? - Lizbeth indagou, enquanto Alan se afastava.
       - Ora, no h nada de errado com Alan - Lara replicou, contendo a tristeza que ameaava traduzir-se em lgrimas.
       Com certeza Alan passara o dia todo em companhia de Caroline Sinclair...
       
       
       Lara ocupou-se de Lizbeth at o momento em que a velha senhora adormeceu. Ento, sabendo que seria incapaz de conciliar o sono, desceu para a sala de estar e ligou a televiso. Com ar distante, observou as imagens de um filme de suspense, mas logo seus pensamentos a levaram para longe do vdeo. E a imagem marcante de Alan veio-lhe  mente. Beijos, carcias e a dura conversa final...
       O que fazer, dali por diante?
       Irritada, levantou-se do sof e desligou a televiso. Ento, deitou-se, cobrindo o rosto com as mos. Seu mundo estava de pernas para o ar. E, pela primeira vez depois de tanto tempo, ela voltava a sentir-se perdida e abandonada.
       Tentando fugir da angstia que a dominava, pensou no velho plano de escrever um livro, de retirar-se para um local sossegado e ali dar  imaginao para criar uma histria de amor.
       Material e argumentos no lhe faltavam... No depois de Alan Crane, que viera como um sopro de vida inesperado. Um sopro que se transformara num vendaval. Algum dia, escreveria sobre tudo aquilo...
       
       
       Um rudo despertou-a do torpor em que se encontrava, e ela sentou-se rapidamente:
       - Alan! - exclamou, sobressaltada.
       Trajando um roupo de seda cor de creme, os cabelos revoltos, ele parecia mais atraente do que nunca.
       - Perdoe-me. Eu... no queria assust-la.
       - Perdoe-me voc - ela respondeu, recostando-se novamente. - Eu  que ando tensa, nos ltimos dias.
       - Por que? - indagou, suavemente, sentando-se ao lado dela.
       - Por tudo... - Lara respondeu, vagamente.
       Pronto, ali estava Alan de novo, surpreendendo-a! Ainda h pouco, ele a fitara com indiferena. E, no entanto, agora, parecia de novo aquele homem encantador, capaz de faz-la perder o controle.
       - Mas voc... deve ter algo a me dizer, j que veio at aqui.
       - Acho que lhe devo uma explicao.
       - A respeito de qu?
       - Lara... - Ele a olhava com uma expresso de angstia. - Eu nem sei por onde comear.
       - Que tal comear pelo que est sentindo? - ela props com a respirao suspensa.
       - Voc alguma vez em sua vida sonhou com algo... algo que parecia impossvel de acontecer?
       - Claro - ela respondeu, sem pensar.
       Pois no esperara por Jason tanto tempo? Mesmo depois que ele a abandonara no altar, no sonhara com o milagre de tornar a v-lo?
       Por quantas vezes sobressaltara-se, quando o telefone ou a campainha tocavam, esperando que fosse Jason retornando para pedir-lhe perdo?
       Alan percebeu claramente o que ela estava sentindo e foi em tom de desgosto que comentou:
       - Jason... Ai est ele de novo, colocando-se entre ns.
       - No posso negar esse fato, Alan. Mas quero que voc saiba que, se Jason est presente, j no  como antes. Os fantasmas do passado j no me perturbam mais.
       Alan fitou-a, surpreso.
       - O que est dizendo, Lara?
       - Voc ainda no compreendeu? O que aconteceu nesses dias ainda no foi suficiente para lhe mostrar que...
       - Que voc, a garota encantadora do passado, se transformou numa mulher exuberante? Sim, isso eu j vi... Voc  uma mulher capaz de roubar o controle de qualquer homem que se preze.
       Lara assumiu uma expresso sria.
       - Escute aqui, Alan. Com quantos homens voc acha que me envolvi nos ltimos tempos?
       A resposta veio num tom sarcstico:
       - Talvez eu precisasse de uma mquina de calcular para dizer ao certo...	
       - Voc no deve brincar assim - ela replicou, rspida. - Alis, eu no admito que graceje sobre um assunto to srio. Cruzando os braos, prosseguiu: - Ento  assim que voc pensa a meu respeito? Que sou uma mulher fatal, do tipo que se envolve com qualquer homem disponvel sem pensar nas conseqncias, desconsiderando qualquer sentimento mais profundo?  assim que voc me julga, Alan?
       Ele levou alguns segundos para responder:
       - No estou acusando ningum. Alis, nem tenho esse direito. Mas sei que voc pode ter quantos homens desejar.
       - Voc est sendo injusto, Alan. Eu j estou ficando cansada de tentar fazer com que voc acredite em mim.
       - Lara... Voc me deseja?
       - Pensei que isso j tivesse ficado bem claro entre ns - ela respondeu, num fio de voz. - A resposta  sim, claro que desejo voc.
       - Minha querida... - ele murmurou, tomando-lhe as mos. - Eu tenho me portado como um idiota, desde ontem  noite. Mas, compreenda,  que esperei tanto tempo para ouvir isso...
       Lara ia responder, mas os lbios de Alan cobriram os seus e ela correspondeu com ardor ao beijo intenso. A profunda angstia que h pouco sentia tornava a desaparecer, cedendo lugar a uma felicidade sem limites.
       - Lara... - ele murmurou por entre os beijos.
       - No diga nada, querido - ela pediu, num tom de splica. - Apenas no pare de me beijar. No h nada que eu deseje mais. 
       Estremecendo de prazer, Alan beijou-lhe os cabelos, o pescoo delicado e num impulso desabotoou-lhe a blusa, buscando-lhe os seios sob o tecido finssimo.
       E Lara deixou-se levar pelo desejo, que a incendiava...
       Tomando nas mos os seios delicados e firmes, que agora pareciam pulsar, ele intensificou as carcias deixando que as mos deslizassem pela pele macia de Lara. Ela se entregava sem restries.
       Alan agora lhe acariciava as pernas, as coxas, buscando o caminho do prazer. Sob a maciez da seda que cobria o corpo msculo, ela sentia o desejo pulsante de Alan. E continuava a deixar se embalar pela voz do sentimento, que a dominava.
       Os corpos comeavam a movimentar-se lentamente, na envolvente dana do amor.
       Lara era pura receptividade e arqueava o corpo ardente, buscando um amor que jamais conhecera. Nunca homem algum a tocara daquele modo.
       Sua blusa de tecido fino cara sobre o assoalho e Alan abrira o roupo, expondo o corpo musculoso, fremente de paixo.
       "Eu te amo, Alan", ela pensava, e queria traduzir esse sentimento em palavras, mas simplesmente no conseguia dizer nada.
       - Quero lhe dar todo o prazer que voc merece, querida - ele sussurrava, pressionando o corpo contra o de Lara. - Quero que voc nunca se esquea desse nosso momento.
       "Como poderia?", ela perguntava-se em pensamento. Como poderia esquecer, se o amava desesperadamente, como jamais julgara possvel?
       Nem mesmo Jason, com suas carcias ousadas e at mesmo infantis, provocara-lhe tantas sensaes. A verdade era que Jason agora lhe parecia quase uma criana, um menino dasajeitado que nada compreendia do amor.
       Atnita, Lara compreendeu que teria sido um erro casar-se com Jason. E agradeceu ao destino por ter evitado o casamento, embora no passado isso lhe houvesse causado tanta dor.
       No entanto, no era em Jason que queria pensar. No naquele momento quando Alan, deitado sobre ela, ultrapassava todos os limites das carcias, buscando a concretizao de algo que para Lara era totalmente desconhecido.
       - No me importa quantos homens estiveram com voc, querida - ele disse baixinho. - O que importa  que esta  nossa primeira vez.
       -  a minha primeira vez, Alan - ela confessou com voz rouca. - Acho que voc deve saber disso. Por favor, tenha pacincia comigo, porque...
       - O que est me dizendo, querida? - ele indagou, interrompendo os movimentos, tomando-lhe o rosto entre as mos.
       Arquejante, Lara respondeu:
       - Eu... Talvez devesse ter lhe dito antes, mas... Bem, no tivemos chance para conversar sobre isso. Alm do mais, tudo aconteceu to depressa...
       - Eu... no estou entendendo, Lara. Por acaso est tentando me dizer que...
       - Que sou virgem. Que nunca me entreguei a ningum. 
       Alan quis dizer algo, mas apenas conseguiu fit-la, atnito com aquela revelao.
       - A ningum? - ele repetiu, aps um longo momento.
       - Eu jamais fiz amor com um homem, Alan.
       Ele sentou-se e, enlaando-a pela cintura, mergulhou num profundo silncio. S ento conseguiu dizer:
       - Mas voc e Jason... Eu tinha certeza de que vocs dois...
       - Nunca chegamos a concretizar uma relao sexual - ela explicou, recostando a cabea no ombro de Alan. - Eu... sempre disse a Jason que preferia esperar pela lua-de-mel.
       - Foi por isso que se manteve virgem at hoje? Porque est esperando por Jason?
       - Por favor, no fale assim. Jason j no significa nada para mim. Eu s quero voc.
       -  verdade, Lara?
       - O qu?
       - Isso que acaba de me dizer? Jason realmente no significa mais nada para voc?
       - Pode acreditar.
       - Mas voc o amou.
       - Sim.
       - E, mesmo assim, conseguiu se controlar para no se entregar a ele?
       Lara relutou:
       - Bem, eu queria esperar pela lua-de-mel. Mas havia um outro motivo tambm. Um motivo de ordem muito ntima, alis... - Aps alguns momentos de hesitao ela concluiu: -  que... todas as vezes que Jason tentava me possuir, eu... sentia medo.
       - E voc sentiu medo de mim... agora? 
       Ela pressionou-lhe a mo, docemente.
       - Com voc est sendo tudo to diferente... To mais intenso. Ainda h pouco, eu... eu no queria que voc parasse. Desejava que voc continuasse a me acariciar, lentamente. Voc compreende, tudo isso  novo para mim. Mesmo com Jason, eu jamais permiti que ele chegasse to perto... Alis, nenhum homem me tocou desse modo, at hoje. Mas a verdade  que voc no me causou medo, Alan, ao contrrio.
       Mais uma vez, Lara sentiu o impulso quase irresistvel de confessar o que sentia. Seria to simples dizer "eu te amo"... No entanto, um embarao quase infantil a impedia de expor-se.
       - Com voc  tudo to bonito, Alan... 
       Ele abraou-a com infinita ternura.
       - Eu tenho agido como um idiota completo, com meu medo de ser rejeitado. Mas prometo que daqui por diante ser tudo diferente. Ns teremos todo tempo do mundo para nos conhecer, querida. E, quando chegar o momento certo, quando estivermos verdadeiramente preparados, pertenceremos um ao outro.
       Ajudando-a a vestir a blusa, acrescentou:
       - Voc merece toda o amor do mundo, merece a noite mais bela, as carcias mais doces... E vou tentar me controlar, para no estragar nosso momento maior com precipitaes.
       
       
       
CAPTULO VII

       Andando de um lado para o outro em seu quarto, Alan sentia-se preso de uma felicidade incontrolvel. J era madrugada e, pela janela aberta, ele podia contemplar a lua e as estrelas daquela noite to especial.
       Deixar Lara  porta da sute, depois de beij-la longamente, custara-lhe muito esforo. Foi quase impossvel controlar a vontade de tom-la nos braos, ergu-la no colo e lev-la at a cama, para cobri-la de beijos e carcias.
       A vontade de possu-la, de torn-la sua naquela mesma noite incendiava-o. Entretanto, Alan no queria precipitar a situao. Lara merecia toda a delicadeza do mundo em seu primeiro contato com o verdadeiro amor. Era melhor esperar que estivesse pronta.
       Nunca, nem mesmo em seus sonhos mais loucos, ele pudera supor a realidade que agora se descortinava a seus olhos: Lara jamais conhecera um homem intimamente, e ele seria seu primeiro amor.
       Por quanto tempo se tortura, imaginando Lara nos braos de Jason? E tudo no passara de um sofrimento vo e intil. No fazia mal. A felicidade que agora desfrutava valia qualquer preo. Logo, muito em breve ele faria de Lara sua mulher. Esperara isso por tanto tempo que poderia aguardar um pouco mais.
       Alan despiu-se e atirou-se na cama. Tinha ainda uma semana pela frente. Uma semana, antes que Lara retornasse a Los Angeles,  vida agitada e glamourosa de Hollywood...
       Uma semana para tentar convenc-la de que ambos poderiam, juntos, iniciar uma nova vida. Dividiriam os sonhos, as realizaes, e durante os momentos difceis saberiam ser amigos, namorados, amantes e companheiros. Tudo dependia dos acontecimentos da prxima semana.
       - Uma semana - Alan murmurou, inquieto e cheio de esperanas.
       No era muito tempo, mas ele tentaria com todas as foras manter Lara a seu lado. E dessa vez seria para sempre!
       
       
       Aconchegada sob os lenis macios, Lara deixava-se embalar por sonhos romnticos. Lentamente passava a mo pelo corpo e podia sentir ainda o calor das mos de Alan, que to bem sabia acarici-la, adivinhando-lhe os desejos mais secretos.
       Como fora delicado, como soubera respeitar-lhe o pudor de mulher inexperiente diante da grandeza do amor! E isso o tornava ainda mais belo, aos olhos dela.
       J no sentia medo algum, apenas sonhava com o momento em que Alan a possuiria. E podia entrever a felicidade que os envolveria, no momento da posse. Nada, absolutamente nada, poderia dar errado.
       Aps tanto tempo de uma espera que agora lhe parecia infundada, seu corao elegera o homem certo. O homem que lhe falava to bem ao corpo quanto  alma. Um homem chamado Alan Crane.
       - Quero ser sua - ela disse baixinho.
       E, ento, sentiu-se presa de uma vontade incontrolvel. Por que no sair dali, naquele instante? Por que no batia agora mesmo  porta de Alan? Seria justo continuar retardando algo que ambos desejavam?
       Lara suspirou. O momento to sonhado chegaria. Por ora, tudo o que tinha a fazer era tentar dormir, para que no dia seguinte estivesse bem-disposta para receber os beijos de Alan.
       Ela sorriu. Pedira a Alan para ter pacincia e, no entanto, o desejo queimava-a a ponto de quase faz-la cometer uma tolice.
       Imersa nesses pensamentos, ela adormeceu.
       
       
       Acordou muito cedo na manh seguinte e encontrou Lizbeth  mesa do caf.
       - Bom dia, querida - saudou a velha senhora com tima disposio. - Voc est muito bonita, nesta manh.
       - Bondade sua - Lara respondeu, sentando-se  mesa. Ento, seu rosto iluminou-se num sorriso, pois Alan se aproximava, j vestido para ir ao escritrio. Estava muito elegante num terno esporte. Os cabelos ainda molhados, recendendo a xampu de sndalo, davam-lhe um charme ainda mais especial. 
       Lanando-lhe um olhar intenso, ela cumprimentou-o:
       - Bom dia.
       - Bom dia - ele respondeu, num tom carregado de ternura. Ento beijou os cabelos brancos de Lizbeth. - Titia, a senhora est com tima aparncia, nesta manh
       - Parece que todos estamos muito bem, hoje - a velha senhora replicou, convidando-o a sentar-se.
       Bastaram-lhe uns poucos minutos de observao para certificar-se de que algo muito importante acontecera entre Alan e Lara. E uma intensa alegria a invadiu.
       Ento, era mesmo possvel? Seu sobrinho e sua afilhada estariam lhe preparando uma surpresa?
       Deliciada, Lizbeth observava os longos olhares que trocavam, a forma como sorriam um para o outro, esquecidos do mundo ao redor e at mesmo dela. A velhice trouxera-lhe muitas amarguras, mas tambm uma grande experincia.
       No era preciso pensar duas vezes para concluir que o relacionamento de ambos estava se desenvolvendo... E da melhor forma possvel!
       Com o humor que lhe era familiar, Lizbeth resolveu tirar a prova dos nove. Fazia-o mais para se divertir do que por qualquer outro motivo.
       Voltando-se para Alan, que tinha os olhos fixos em Lara, ela pediu:
       - Querido, ser que pode me passar o pote de gelia? 
       Hipnotizado pela beleza de Lara, que lhe parecia ainda mais exuberante, naquela manh, Alan nem sequer ouviu o pedido da tia, que insistiu:
       - Querido...
       Com voz distante e sem desviar os olhos de Lara, ele indagou:
       - Sim, tia Liz... O que estava dizendo?
       - Oh, nada de importante... - Lizbeth sorriu, marota. - Eu apenas comentava que um tigre de Bengala acabou de entrar em nosso jardim.
       - Ah, claro - ele concordou. - Est uma bela manh, sem dvida.
       Lizbeth conteve o riso. Se dissesse a Alan que o mundo estava acabando naquele instante, isso no seria suficiente para faz-lo desviar os olhos de Lara.
       Decidida a continuar a brincadeira, Lizbeth tocou levemente o brao da afilhada.
       - Lara, meu bem...	
       - Sim?
       - Voc sabe que uma nave procedente de Marte pousou agorinha mesmo em nossa sala de visitas?
       - Que timo! - Lara respondeu com voz distante.
       - E os homenzinhos verdes esto vindo para c.
       - Maravilhoso - foi a resposta distrada de Lara. 
       Lizbeth comeou a rir. S ento ambos se voltaram para ela com uma expresso surpresa!
       - O que foi? - perguntaram, quase ao mesmo tempo.
       - Nada, queridos. Eu apenas me sinto particularmente feliz, nesta manh.
       - A senhora no imagina o quanto fico satisfeito por ouvir isso, tia Liz - Alan replicou, consultando o relgio. - Meu Deus, j estou atrasado! Preciso sair agora mesmo.
       - Eu acompanho voc at o carro, Alan - Lara afirmou, erguendo-se.
       Com um sorriso de satisfao, Lizbeth viu ambos se afastarem. Sim, tudo estava indo muito alm das expectativas.
       
       
       - Tenha um bom dia. - Lara sorriu, depois de beij-lo nos lbios.
       - Como posso ter um bom dia, se vou ficar longe de voc por tanto tempo?
       Inundada por uma onda de felicidade indescritvel, Lara beijou-o uma vez mais. Agora, o fato de saber que Alan se encontraria com Caroline Sinclair j no a perturbava.
       "Ele no pode estar mentindo, quando diz o quanto me quer", Lara pensou com satisfao.
       Como fora tola ao julgar que Alan e Caroline tinham um envolvimento amoroso... Ela perguntou:
       - Ns nos veremos  noite?
       - Claro, querida. Teremos a noite s para ns.
       A promessa contida nessas palavras era evidente, e Lara abraou-o com fora.
       - Vai ser difcil esperar at l. Mas agora v, querido. No quero atras-lo mais.
       Ficou acenando para Alan, at que ele desapareceu na rodovia. Ento voltou para junto de Lizbeth.
       Logo em seguida, o mdico chegou para um exame de rotina.
       
       
       Ao final da consulta, Lara acompanhou o mdico at a sada e, um tanto ansiosa, indagou:
       - Por favor, doutor, gostaria de saber se o estado dela  realmente satisfatrio.
       O mdico sorriu.
       - Mais que isso, srta. MacEuan,  surpreendente. Dentro de poucos dias poderei at suspender alguns remdios.
       - No imagina o quanto me sinto feliz por isso, doutor. Eu... amo Lizbeth, como se ela fosse minha prpria me.
       - Ela tambm a ama, senhorita. Alis, essa sbita e milagrosa recuperao tem tudo a ver com voc, sabe? Desde sua chegada a Pine Harbor que a sra. Lizbeth Crane voltou a ser a mulher alegre e disposta de antes. Alis, eu queria lhe agradecer pessoalmente por ter vindo.
       Ela sorriu.
       - Por favor, no fale assim. O senhor me deixa embaraada, me julgando responsvel pela recuperao de Lizbeth.
       - Mas a senhorita foi mesmo a causa principal da melhora. - Aps uma breve pausa, acrescentou: - Sempre desejei conhec-la pessoalmente, sabe?
       - Ora essa, e por qu?
       - Numa cidade pequena como esta, um mdico acaba se envolvendo com os clientes, num nvel bem mais profundo do que o simples profissionalismo. Assim, me tornei amigo da famlia, sobretudo de Alan...
       - Continue, doutor - Lara pediu, curiosa.
       Aps tirar os culos e guard-los no bolso, o mdico prosseguiu:
       - Atualmente Alan tem andado muito atribulado com o trabalho no escritrio. Tanto quanto eu, em minha clnica. Mas h alguns anos saamos juntos com freqncia e costumvamos jogar tnis no mesmo clube, durante os fins de semana. Certa vez, Alan caiu na quadra e bateu a cabea. Desmaiou em seguida e eu corri para socorr-lo. No foi nada grave, mas lembro que, ainda inconsciente, ele murmurava seu nome, pedindo para ser beijado.
       Lara quis dizer algo, mas a emoo que a invadia era tanta que as palavras ficaram sufocadas em sua garganta e ela nada conseguiu pronunciar, seno uma breve exclamao.
       Com humor o mdico concluiu:
       - Bem, um homem inconsciente no sabe o que diz, embora seja exatamente neste momento que deixa escapar seus segredos mais ntimos.
       - Mas essa queda... teve alguma conseqncia grave?
       - Em absoluto. Alis, logo depois Alan recobrou a conscincia e eu insisti com ele para que tirasse uma chapa, apenas para constatar que nada de mau ocorrera. Depois brinquei, dizendo-lhe que, mesmo que eu me chamasse Lara, no tinha a mnima inteno de obedec-lo - acrescentou, rindo. - Ele reagiu muito mal a essa brincadeira e, assim, no voltei a tocar no assunto. Mas confesso, senhorita, que tinha curiosidade de conhec-la. Agora compreendo por que Alan disse aquilo - afirmou com um olhar de admirao. - E no o condeno.
       Lara sentiu-se constrangida.
       - Bem, isso que acaba de me contar...  bastante interessante.
       - Achei que a senhorita deveria saber - o mdico replicou, estendendo-lhe a mo. - Tenha um bom dia, srta. MacEuan.
       - O mesmo para o senhor - ela respondeu, despedindo-se.
       Quando o mdico finalmente se afastou, Lara pde sorrir como desejava. Que revelao maravilhosa, saber que estivera presente nos sonhos mais ntimos de Alan Crane! Ento era mesmo verdade que sempre fizera parte da vida daquele homem.
       
       
       A manh j ia pelo meio, quando Lara recebeu um telefonema de Mona, esposa de Terry, convidando-a a almoar num restaurante no centro de Pine Harbor.
       - Gostaramos de convid-la para um almoo mais formal, em nossa casa - dizia Mona. - Mas o fato  que partiremos ainda hoje para uma conveno e gostaramos de v-la antes disso.
       - Ser um prazer, Mona - Lara respondeu, num tom amvel. - Onde nos encontraremos?
       - Passarei para apanh-la por volta de meio-dia, que tal? Depois iremos para o Viking, onde encontraremos Terry.
       - Perfeito. Eu estarei pronta - Lara concordou, pensando que seria bom mesmo espairecer um pouco.
       De qualquer forma, muitas horas ainda a separavam do momento de ver Alan. E ela no suportaria passar o dia naquele estado de excitao, consultando o relgio a todo momento.
       Aps despedir-se de Lizbeth, Lara sentou-se na varanda do casaro,  espera de Mona.
       Passavam alguns minutos do meio-dia, quando viu um carro se aproximando. Era ela.
       - Estou atrasada?
       - De jeito nenhum - Lara respondeu, abrindo a porta do veculo e acomodando-se no assento.
       - Terry infelizmente no poder nos encontrar. Teve de atender um caso urgente na clnica.
       - Ah, que pena! Gostaria tanto de rev-lo...
       - E ele tambm estava to ansioso para encontrar voc... Alis, pediu que lhe mandasse um grande abrao.
       - Oh, mande lembranas minhas para ele e d-lhe um grande abrao, tambm.
       O Viking era um restaurante famoso, situado na rua central de Pine Harbor, onde o comrcio era intenso. Lara sabia que o escritrio de Alan ficava ali perto e sonhou com a possibilidade de encontr-lo. Seria maravilhoso, se isso acontecesse.
       - Que tal aquela mesa? - Mona indagou, apontando um lugar prximo  janela, de onde era possvel observar o movimento intenso da rua.
       - Para mim est timo - Lara concordou.
       A conversa transcorreu de modo agradvel, e Lara ficou conhecendo um pouco sobre o trabalho que Mona e Terry desenvolviam, no ramo da pediatria.
       - Voc no imagina o quanto fiquei surpresa e feliz ao saber que voc e Terry se casaram, esto vivendo bem e desenvolvendo uma carreira brilhante.
       Mona sorriu com modstia.
       - O trabalho tem sido gratificante. Mas devemos grande parte de nosso sucesso a Alan, que financiou a compra de um equipamento sofisticado para a clnica. Se no fosse por ele, ainda estaramos num estgio muito menor das pesquisas.
       Lara sorriu com orgulho. Sim, esta era a palavra adequada para definir o que estava sentindo: orgulho de Alan, do homem que amava. Isso, sim, era verdadeiramente gratificante.
       - Mas me conte de voc, Lara querida. Sempre tive curiosidade de saber como  a vida em Hollywood. Voc deve conhecer um bocado de gente famosa, no?
       - Bem, a gente acaba conhecendo - ela respondeu, um tanto constrangida por ser alvo de admirao da velha colega de escola. - Mas o trabalho no  diferente de qualquer outro.
       - Deve ser emocionante.
       - Emocionante, desgastante, satisfatrio, enfim...  uma profisso como qualquer outra, com seus altos e baixos.
       - Voc se sente realizada?
       - Lgico. Afinal, trabalho no que sempre desejei fazer. Mas por vezes tenho vontade de fugir um pouco daquela correria para escrever um livro. Um livro s meu, compreende, sem as exigncias do esquema televisivo.
       - Oh, eu adoraria ler uma obra sua, Lara.
       - Eu tambm - ela replicou, bem-humorada. - S que para fazer isso eu teria de abandonar ao menos temporariamente a agitao de Los Angeles e me retirar para um lugar calmo, onde pudesse dar vazo a minha criatividade literria.
       - No daria para conciliar as duas coisas?
       - Impossvel. Depois de um dia intenso de trabalho no estdio, chego exausta em casa e mal tenho tempo de tomar um banho, comer alguma coisa e dormir. Quero dizer, no sobra nimo para mais nada.
       - Bem, se voc sente necessidade de ficar num lugar tranqilo, quero lhe oferecer uma pequena chcara que eu e Terry compramos recentemente. Est a sua disposio e fica a apenas cinqenta quilmetros daqui.
       - Obrigada, Mona. Vou me lembrar disso, caso resolva escrever meu livro algum dia.
       O almoo,  base de frutos do mar, estava muito saboroso. No final, enquanto tomavam caf, Mona consultou o relgio.
       - Perdoe-me, mas s tenho mais dez minutos. Preciso voltar  clnica para ver se Terry resolveu o caso urgente desta manha. E ainda preciso preparar as malas, pois viajaremos hoje  noite. Voc quer que eu a deixe na casa dos Crane?
       - No se preocupe, posso tomar um txi at l.
       - De modo algum. S lhe perguntei isso porque no sabia se voc tinha algum compromisso aqui no centro da cidade. - Com um gesto Mona pediu ao garom que trouxesse a conta. E, quando Lara props-se a pagar, ela reagiu com firmeza: - Nada disso, garota. Fui eu que convidei.
       - Ento me prometa que, quando voc e Terry forem a Los Angeles, no deixaro de me fazer uma visita.
       - Claro que sim, querida. Escute, vou dar um pulo ao toalete. Enquanto isso, pode me deixar seu endereo e telefone aqui na agenda?
       - Ser um prazer, Mona - Lara aquiesceu, tomando a agenda e a caneta que a outra lhe estendia.
       Escreveu seu endereo e, enquanto aguardava que Mona retornasse do toalete, observou a rua atravs da janela. Sua expresso tranqila transformou-se em surpresa... E depois em angstia.
       Pela avenida, Alan e Caroline Sinclair passeavam, sorrindo um para o outro. Pararam em frente a uma joalheria e ento se abraaram. Erguendo-se na ponta dos ps, a exuberante Caroline beijou as faces de Alan.
       Lara sentiu que o cho lhe fugia sob os ps. Escondendo o rosto entre as mos, tentou dizer a si mesma que tudo no passava de um pesadelo, do qual despertaria a seguir.
       Quando olhou novamente para a rua, Alan e Caroline j no estavam l. Talvez houvessem entrado na joalheria... Quem saberia dizer?
       - Lara querida, voc est plida como um fantasma! - Mona exclamou, preocupada, assim que retornou do toalete. - O que aconteceu?
       - Nada, acho que  o calor... Estou me sentindo um pouco mal.
       - Quer que eu a leve at a clnica?
       - No  preciso. Apenas me deixe na casa dos Crane, por favor...
       - Mas voc no est nada bem. Talvez precise de algum medicamento.
       - No se preocupe.  apenas um ligeiro mal-estar, que logo passar. Vamos?
       Foi torturante para Lara conter a vontade de chorar, durante o trajeto de volta. E ainda por cima tinha de responder s perguntas de Mona, que continuava preocupada com sua palidez repentina.
       Despediram-se e Lara entrou correndo no casaro. Felizmente Lizbeth devia estar repousando, quela hora. Assim, ela pde correr para o quarto e dar vazo  dor insuportvel que ameaava sufoc-la.
       Ento era assim que Alan a amava? Quem era ele, para brincar desse modo com seus sentimentos? Ou ser que ela nada representava para Alan, alm de uma garota bonita e desfrutvel, como Caroline e tantas outras?
       - Alan Crane... Voc no tinha esse direito - ela murmurou, por entre as lgrimas.
       No era possvel que Alan fosse capaz de mentir a esse ponto. Ou seria ela quem agora se portava como uma garota ingnua e crdula?
       Os homens seriam mesmo todos iguais? Todos mentirosos e sem escrpulos de ferir os sentimentos das mulheres?
       Lara sempre detestara qualquer tipo de generalizao, mas agora simplesmente no via outra sada, seno concordar com os velhos chaves das mulheres a respeito da falsidade dos homens. Seria essa a regra do amor? Mentiras, desiluses e armadilhas?
       Como era possvel que pela manh Alan se houvesse mostrado to sincero  amoroso, para algumas horas depois se divertir com outra mulher?
       Afundando o rosto no travesseiro, Lara deixava que as lgrimas escorressem livremente, mas a dor continuava insuportvel. Pela segunda vez, ela se desiludia no amor. Na primeira, era mais jovem... Contudo, agora no tinha chance alguma de se recuperar. E pensar que quase se entregara a Alan!
       Embora soubesse que Lizbeth a estava aguardando para o lanche da tarde, Lara no teve foras para sair do quarto. Na verdade, no queria ver ningum, nem mesmo sua querida madrinha.
       Precisava ficar s para tentar recuperar-se daquele golpe. Alis, se no fosse por Lizbeth, j teria tomado o primeiro avio para a Califrnia.
       Exausta, acabou adormecendo.
       
       
       Quando despertou, a noite j cara. No entanto, nem mesmo as horas de sono serviram para deix-la mais disposta. Continuava mais deprimida do que nunca e a todo momento a imagem de Alan abraando Caroline voltava-lhe  mente, provocando novos acessos de choro.
       Precisava reagir, mas no tinha a mnima idia de como faz-lo. Por isso continuava ali, encolhida como um animalzinho assustado.
       Uma batida  porta a fez estremecer.
       Lara no respondeu. Apenas se encolheu ainda mais. Bateram novamente e, com a voz embargada, ela perguntou:
       - Quem ?
       - Sou eu, querida - respondeu Alan, do outro lado da porta.
       - O que voc quer? - sua voz soou desesperada, e foi num tom de preocupao que Alan replicou:
       - Como assim... o que eu quero, meu bem? Escute, aconteceu algo de errado? Sua voz est estranha...
       - No h nada errado comigo - Lara quase gritou. - V embora.
       - Lara, o que h? Abra esta porta, por favor.
       - V embora! - ela repetiu, furiosa.
       - Lara, querida, voc est me deixando preocupado - ele disse, mexendo na maaneta. - Por favor, destranque a porta para que possamos conversar.
       - Por que no tenta bater no quarto de Caroline Sinclair? - ela replicou, totalmente fora de controle. - Tenho certeza de que ela no trancar a porta para voc.
       - Caroline Sinclair? - ele repetiu, perplexo. - O que ela tem a ver com isso?
       - Pode parar com suas mentiras, Alan. Volte para sua Caroline e me deixe em paz.
       - Pelo amor de Deus, Lara! Quer abrir esta porta para que possamos conversar como duas pessoas adultas?
       - No tenho nada para conversar com voc. Eu vi tudo.
       - Tudo... o qu?
       - Voc e Caroline se abraando, na rua principal da cidade. J vi tudo, escutou bem? Pode parar com seu fingimento. A idiota da Lara MacEuan j sabe que estava sendo enganada. Final de jogo, Alan Crane. A mim voc no ilude mais.
       - Lara... - ele pediu, impaciente. - Quer abrir esta porta, por favor? Deixe-me ao menos esclarecer a situao. O que voc pensa que viu...
       - O que eu penso que vi? Por acaso est querendo me convencer de que fiquei maluca, Alan? J no bastam suas mentiras de antes?
       - Abra esta porta, Lara - ele ordenou, num tom seco. Deixe-me explicar o que aconteceu. Depois, se no acreditar em mim, pode me mandar embora. Mas ao menos me d a chance de esclarecer esse mal-entendido.
       - Tudo bem. - Ela se levantou e abriu a porta com um gesto brusco. - Pode gastar suas desculpas, que voc no vai me convencer. Vamos, diga quantas mentiras quiser e depois suma daqui, pelo amor de Deus.
       A expresso de raiva de Alan transformou-se aos poucos numa expresso de ternura.
       - Voc est sofrendo... - ele murmurou. - Fui eu quem lhe causou tanta angstia, Lara?
       Alan ensaiou uma carcia, mas ela se afastou e, cruzando os braos, encarou-o com ar de desafio.
       - Voc tem uma explicao a dar. Tente ser convincente, sr. Crane, porque j no sou a garota ingnua que voc ludibriou com palavras doces hoje de manh. Vamos l, estou esperando.
       Alan suspirou.
       - Para comear, quero lhe dizer que o que voc viu hoje foi Caroline me beijando e no...
       - Que diferena faz?
       Ele fitou-a com ar de censura.
       - Lara, por quem voc me toma, afinal? Acha que sou o tipo de homem que costuma se divertir com vrias mulheres ao mesmo tempo? 
       - Sim.
       Alan comeou a rir e ela reagiu, furiosa:
       - No acho graa nenhuma. E, se veio aqui s para se divertir a minha custa, ento v embora.
       - Por que voc acha que Caroline estava me abraando, Lara?
       - Ora, v para o inferno! Voc j me humilhou o bastante por hoje. Pare de me atormentar.
       - Responda a minha pergunta. Por que acha que eu e Caroline...
       - Eu nem imagino por qu! - ela gritou, exasperada. - No sei ler pensamentos.
       - Naturalmente no - ele retrucou, num tom calmo, que s serviu para exasper-la ainda mais. - Se soubesse, voc compreenderia que Caroline s estava me abraando para me congratular...
       - Congratular... - ela repetiu, confusa. - Por qu? 
       Retirando do bolso uma pequenina caixa de veludo, ele respondeu:
       - Porque eu contei a ela que estava apaixonado por voc. E pedi que me ajudasse a escolher um anel de noivado... Aqui est ele. Agora, tudo depende de voc...
       O desespero de Lara comeou a ceder lugar a uma felicidade inexplicvel. A intuio dizia-lhe que aquele inferno das ltimas horas comeava a transformar-se num verdadeiro paraso.
       - Que resposta? - ela indagou, num sussurro.
       - Eu amo voc, Lara. Amo desde que voc tinha quinze anos. - Estendendo-lhe o estojo de veludo, acrescentou: - Quer se casar comigo?
       
       
       
       
       




       
       
       
       
       
CAPTULO VIII

       Lara no conseguiu responder. Apenas ficou olhando para Alan, como se no acreditasse no que acabava de ouvir. Incrdula, observava a pequenina caixa de veludo azul e ento voltava a contemplar Alan.
       - Por favor, diga alguma coisa - ele pediu, ansioso. - Eu amo voc, Lara, ser que pode compreender isso?
       - Voc me ama... - ela repetiu com os olhos brilhantes de emoo.
       - Sim, e preciso de uma chance para mostrar o quanto a quero. Quero faz-la feliz, Lara.
       Ela sorriu. A ansiedade estampada no rosto de Alan deixava evidente o quanto ele ignorava seus sentimentos. Lara pensou, comovida.
       - Por favor, quero que considere essa proposta com muita seriedade - ele insistiu.
       Considerar? Mas o que havia para ser considerado? Amava aquele homem e se casaria com ele, a qualquer momento.
       Tomando o silncio de Lara como hesitao, Alan prosseguiu:
       - Bem, imagino que voc precise de algum tempo para pensar... No  mesmo?
       Lara apenas continuava a sorrir, presa de uma intensa emoo.
       - Quanto tempo, aproximadamente, voc levar para me dar uma resposta? - indagou, tenso.
       Tinha medo de que Lara lhe pedisse muitos dias, talvez mesmo semanas para refletir. Tinha medo de que ela retornasse  Califrnia e l encontrasse algum...
       "Quantas dvidas!", Alan pensou, esforando-se para manter o controle. Imprimindo  voz uma calma que estava longe de sentir, acrescentou:
       - Bem... Por quanto tempo voc deseja pensar?
       Acariciando-lhe os cabelos loiros, Lara levou alguns instantes para responder:
       - J pensei, querido. A resposta  sim.
       Alan no reagiu de imediato. Ficou em silncio por alguns minutos, considerando o que acabara de ouvir.
       Sim, ela dissera. Como era possvel que uma palavra to simples pudesse selar tamanha felicidade?
       - Ei... - ela provocou. - Diga alguma coisa.
       - Eu... entendi bem? Voc disse que concorda em se casar comigo?
       - Claro, querido. E no fique me olhando assim. Eu seria capaz de me casar com voc neste exato instante, sr. Crane.
       Ele fitou-a intensamente.
       - Gostaria de dizer tudo o que estou sentindo agora, s que as palavras me parecem insuficientes.
       - Ento, diga isso de outro modo - ela retrucou, erguendo-se na ponta dos ps, entreabrindo os lbios para receber um beijo.
       Emocionado, Alan beijou longamente aquela boca, que agora seria sua para sempre. Ento se afastou de Lara, voltando-lhe as costas.
       - O que houve? - ela indagou, sem entender.
       -  que... - ele hesitava - est ficando cada vez mais difcil controlar o desejo que sinto por voc.
       Lara abraou-o com fora.
       - Sinto que est chegando o momento de nos conhecermos profundamente.
       Havia algo mais que ela desejava dizer, mas preferiu deixar para o instante em que estivessem desfrutando uma intimidade maior. 
       Ofegante de desejo, Alan apenas conseguiu responder:
       - Escute, voc ainda no viu o presente que lhe trouxe.
       - Meu maior presente foi seu pedido de casamento, Alan - ela replicou, abrindo a caixinha, - Oh, querido,  muito lindo! - exclamou, contemplando o anel com um diamante ao centro. - Voc... no deveria ter se incomodado...  lindo demais, Alan.
       -  seu anel de noivado. Que bom que voc gostou.
       - Meu anel de noivado - ela repetiu, frisando bem cada palavra.
       S ento lembrou que devia desculpas a Alan.
       - Escute, ser que pode me perdoar pela forma grosseira com que o tratei agora h pouco? Pode me desculpar tambm eu t-lo julgado de maneira injusta... Por favor?
       - Claro que sim, meu bem. Mas no vamos mais falar desse assunto. Afinal, temos de tratar de negcios.
       - Negcios? - ela repetiu, sem entender. - Como assim, Alan?
       - Ora, ns acabamos de ficar noivos e precisamos de um beijo para selar esse fato, no lhe parece?
       - Voc e impossvel. - Ela riu, abraando-o uma vez mais.
       E depois de muitos beijos ambos comearam a conversar seriamente sobre o futuro. Havia muitos problemas a serem debatidos e um sem-nmero de decises a tomar. Ficou combinado que morariam ali mesmo, naquele casaro antigo e bem conservado. Afinal, ambos amavam aquele lugar. E certamente a velha Lizbeth concordaria com o arranjo.
       - Mas... e quanto a seu trabalho? - Alan replicou, tocando no assunto que tanto temera at ento.
       - Querido, eu deixaria qualquer coisa no mundo para ficar com voc.
       Um largo, sorriso iluminou o rosto de Alan. No entanto, aps refletir por alguns momentos, ele discordou:
       - Voc no imagina o quanto fico feliz por seu desprendimento, querida. Mas simplesmente no posso aceitar que abandone sua carreira por mim. Eu jamais me perdoaria, se permitisse isso, compreende?
       Lara sentiu-se invadida por uma onda de ternura. Sabia muito bem o quanto Alan a queria a seu lado e, no entanto, ele no tinha coragem de sacrific-la. Qualquer outro homem teria aceitado de bom grado o oferecimento... Mas no Alan Crane. Ele era especial.
       - Mas, veja, eu sempre desejei escrever um livro, voc sabe. Poderia faz-lo agora, na tranqilidade de Pine Harbor... O que lhe parece?
       - Lara, faa o que quiser, mas no se frustre por mim ou por nosso casamento.
       Ela sorriu, de repente.
       - Mas, claro, h uma outra sada.
       - Qual?
       - Ora, existem vrias emissoras de tev na Nova Inglaterra. Inclusive representantes da mesma emissora para a qual trabalho em Los Angeles. Assim, eu poderia pedir uma transferncia para c. O que pensa disso, Alan?
       - Perfeito. Mas voc acha que, depois de trabalhar no centro fervilhante de Hollywood, conseguiria se adaptar ao ritmo daqui, sem se entediar?
       - No esquea que, com o cargo que ocupo em Los Angeles, posso conseguir uma boa posio em qualquer outro local. Talvez at me dem um programa para dirigir. Ou quem sabe me deixem continuar escrevendo para o programa de Hap Harrigan, como free-lance...
       - Agora, sim, voc abriu boas perspectivas para sua carreira. Assim eu me sinto mais tranqilo. Sabe, querida, nosso casamento tem de ser algo que nos acrescente, que nos faa crescer. E no algo que impea nossas realizaes, compreende?
       - Voc  maravilhoso.
       - Ora, no diga tolices, querida.
       - Alan, qualquer outro homem s se preocuparia consigo, entende? Com o desejo egosta de ter a esposa a seu lado, sem considerar ao menos por um momento o que ela pudesse estar sentindo. - Aps uma pausa, Lara acrescentou: - Acho que  por isso que me sinto bem a seu lado. Voc me trata como um ser humano, e no apenas como um objeto de desejo...
       - Voc merece toda a considerao do mundo, meu bem. Todo o respeito, todo o carinho, todo o amor...
       - Quantas vezes preciso lhe dizer que fico embaraada com elogios?
       - Tudo bem. Vamos continuar falando de negcios, ento - ele replicou, enlaando-a pela cintura. - A propsito, quando nos casaremos?
       - Que tal amanh? Ou, ento, daqui a cinco minutos?
       - Seria timo - ele concordou, divertido. - Mas acho que assim no teramos tempo de convidar ningum.
       - Ser que queremos convidados em nosso casamento? - Lara retrucou. - Para mim bastaria a presena de Lizbeth.
       - Tia Lizbeth! - Alan exclamou, levando a mo  testa. Eu a deixei  mesa, nos esperando para jantar.
       - O qu?
       - Ela estava preocupada com voc, e eu fiquei de vir busc-la, para que ns trs jantssemos juntos. H quanto tempo estamos conversando, querida?
       - Como posso saber, Alan? Perto de voc, o tempo no tem a menor significao.
       Lara aproximou-se do guarda-roupa e abriu as portas.
       - Escute, por que voc no desce agora para fazer companhia a Lizbeth, enquanto me apronto? Estarei junto a vocs em cinco minutos.
       - Certo - ele aquiesceu. Aproximou-se por trs de Lara e abraou-a. - No me deixe longe de voc por muito tempo. - E beijou-lhe a pele macia do pescoo, causando-lhe um arrepio de prazer. - Voc  to suave, Lara... to macia... Parece que foi feita para o amor.
       - No faa assim comigo, Alan... Ou acabaremos esquecendo nossa querida Lizbeth, mais uma vez - ela retrucou, colando o corpo contra o de Alan. - Quer ter um pouquinho de juzo, por favor?
       - Vou tentar - ele murmurou, sem solt-la.
       - Seu grande maroto! - ela exclamou, rindo. - Fora daqui, vamos. Precisamos contar a Lizbeth sobre nossa deciso. E, se eu no tiver juzo por ns dois, voc por tudo a perder.
       - Certo, sra. Crane. Voc  quem manda, - E saiu, depois de beij-la de leve nos lbios.
       - Sra. Crane... - Lara repetiu, baixinho. - Sra. Lara MacEuan Crane...
       
       
       Quando desceu para a sala de jantar, ela encontrou Alan e Lizbeth num clima de alegre euforia.
       - Espero que no tenha ficado aborrecida conosco, Lizbeth - desculpou-se, sentando-se  mesa. - Mas  que comeamos a conversar e...
       Alan completou:
       - ...e, alis, temos uma novidade para contar, tia Liz.
       A velha senhora conteve um sorriso. Poderia jurar que sabia exatamente o que ambos tinham para contar. No entanto, em sua idade j aprendera que os momentos felizes eram muito especiais. Por isso, quando ocorriam, o melhor a fazer era compartilh-los. Assim, foi com ar de fingida inocncia que Lizbeth indagou:
       - Estavam falando sobre a partida de Lara, na prxima semana?
       - No - ambos responderam, quase ao mesmo tempo.
       - O fato  que... - Alan parecia embaraado e lanou um olhar splice a Lara. - Bem, ns...
       - ...pensamos muito e...
       Aquilo era demais! Lizbeth, incapaz de controlar o riso, no conseguiu mais conter a alegria que a inundava.
       - Meu Deus, vocs conseguem fazer um drama imenso de uma situao to simples. O que querem me contar cabe em trs palavras: "Vamos nos casar". Acertei?
       - Em cheio - Lara concordou e ergueu-se para abraar a velha senhora.
       Alan juntou-se a elas, e os trs comemoraram aquele momento especial. Eram de novo uma famlia, e dessa vez no haveria rompimentos ou desgostos. A no ser que o destino preparasse uma surpresa...
       O jantar transcorreu num clima de festa. Entusiasmados, discutiram os detalhes do casamento, que deveria ser providenciado para o mais breve possvel.
       Vinte dias era tempo suficiente para que Lara viajasse at Los Angeles e retornasse, depois de acertar sua situao profissional. Nesse tempo, providenciaria os convites, o vestido, os preparativos para a recepo, enfim, tudo o que fosse necessrio para a cerimnia.
       Alan, por sua vez, cuidaria de reformar o casaro, mudar alguns mveis e tapetes, pintar quartos, trocar alguns vidros, enfim, tornar o local novo, compatvel com uma vida de recm-casados.
       
       
       Os dias que se seguiram foram muito intensos. Lara trabalhava desde a manh, cuidando dos preparativos. s vezes, encontrava-se com Alan no centro de Pine Harbor e almoavam juntos, depois de percorrer as lojas e fazer muitas compras para o enxoval de Lara, que alis ela ia guardando e j dispondo na sute que ocupariam em breve, o primeiro cmodo que Alan reformou.
       O tempo transcorria rapidamente. s vezes, Lara acordava assustada no meio da noite, receando que tudo aquilo no passasse de um sonho, do qual despertaria em breve, na solido de seu apartamento em Los Angeles. Ou ento um outro tipo de temor a invadia: o pressentimento de que algo terrvel poderia acontecer, destruindo sua felicidade.
       Entretanto, depois, chamando-se de tola, voltava a adormecer. Nada no mundo poderia sequer embaar a plenitude que ela e Alan desfrutavam. Nada mesmo.
       Lara marcou vo para domingo. Era seu ltimo dia de frias e, na segunda-feira, deveria se apresentar para o trabalho. Contudo, j telefonara para Hap Harrigan e, numa conversa particular, expusera seus planos.
       Hap a princpio reagira mal.
       - Mas voc no pode sair assim, baby, de um momento para o outro. Como vou fazer o programa sem voc?
       - Hap, seja compreensivo. Ns j temos quase uma dzia de programas gravados. Portanto, so doze semanas com as quais voc no precisa se preocupar, certo?
       - Mas e depois, baby? O que vou fazer sem minha redatora predileta? - Hap argumentou, num tom excessivamente dramtico.
       - Acontece que nessas doze semanas terei tempo suficiente para escrever pelo menos uns seis programas. Assim, eu lhe enviarei os textos pelo correio. - Lara fez uma pausa, antes de acrescentar: - O que estou tentando lhe propor, Harrigan,  que voc me aceite como redatora free-lance de seu programa.
       - Mas isso  contra o regulamento! Voc sabe muito bem que no temos nenhum free-lance em nossa equipe.
       - Claro que sei - ela aquiesceu, num tom calmo, embora no fundo sentisse muita ansiedade -, mas para tudo na vida existe uma primeira vez. Por que no tenta isso comigo? Garanto que dar certo. Prometo que vou enviar os textos pelo correio com bastante antecedncia e...
       - J entendi, baby. Mas a emissora no vai concordar.
       - Se voc concordar, eles faro o mesmo. Tudo o que estou lhe pedindo  seu apoio, no momento em que eu expuser meu plano  direo da emissora.
       Hap Harrigan levou algum tempo para responder:
       - No vai ser fcil, mas... Tudo bem. Voc pode contar comigo.
       Lara suspirou, aliviada.
       - Oh! Obrigada.
       - Por nada, Lara MacEuan. Agora diga: o que deu em voc, para faz-la mudar de Los Angeles to de repente?
       - Se no se importa, prefiro contar pessoalmente.
       - Hum... Algo me diz que voc caiu no lao.
       - Que lao?
       - O lao do amor, baby... Ningum daria uma reviravolta to grande em sua vida se no fosse pelo amor. Acertei?
       - Sim, mas no conte para ningum... Ao menos at a reunio, quando distribuirei os convites.
       - Fico feliz por voc, Lara. Aceite meus sinceros parabns. Voc e... seja l quem for merecem toda a felicidade do mundo.
       - Obrigada. Bem, devo agradecer tambm pelo apoio e compreenso que est me dando.
       - Bobagem, querida. Ento, ns nos veremos na segunda-feira?
       - Sim. At l, Hap.
       - At l...
       Com um sorriso de satisfao Lara desligou o telefone.
       Hap Harrigan, apesar de ser um homem excntrico e no muito querido no meio artstico, demonstrava dessa vez muita compreenso. Ele bem poderia ter exigido que Lara permanecesse na emissora por mais um ms, cumprindo o tempo de aviso prvio estipulado pelas leis trabalhistas. Ou, o que era ainda pior, poderia ter exigido que ela lhe pagasse uma multa por abandonar o cargo antes do final do contrato. No entanto, em vez disso, Hap Harrigan agira como um bom amigo. E Lara seria eternamente grata por isso.
       
       
       No sbado  tarde, Lara recebeu a visita inesperada de Caroline Sinclair. Alan havia sado, e foi num tom de total constrangimento que ela se desculpou:
       - Alan no est. Se quiser esperar um pouco... Fique  vontade.
       - Sei que Alan no est - Caroline respondeu, num tom calmo. - Ele foi justamente gravar um depoimento importante, sobre um caso que em breve dever ser levado aos tribunais.
       - Ah, ento voc veio visitar Lizbeth - Lara concluiu, de imediato. - Desculpe, mas ela est repousando. Importa-se de esperar uns vinte minutos? Lizbeth no deve demorar para acordar.
       Caroline sorriu.
       - Eu no vim ver Lizbeth... Ao menos no especialmente.
       - No?
       - Eu vim ver voc, Lara.
       - Como?
       - Vim saber se voc precisa de alguma coisa, alguma ajuda, quero dizer. Vim me colocar  disposio, para auxili-la no que for preciso. Sei o quanto  trabalhoso cuidar dos preparativos um casamento... - Caroline sorriu. - E sei por experincia prpria.
       - Voc  casada? - Lara indagou, de um s flego.
       - No, mas j ajudei duas irms minhas a se casarem. Portanto, se voc precisar de algo...
       - Obrigada - Lara agradeceu, sentindo um mal-estar crescente.
       Embora tivesse certeza de que Alan a amava, a beleza estonteante de Caroline ainda a incomodava, pois sabia que homem algum poderia ficar indiferente ao encanto daquela jovem.
       - J est tudo sob controle. Mesmo assim, agradeo sua boa vontade.
       - Voc j encontrou um buf?
       - No.
       - Fotgrafos?
       - No.
       - J enviou todos os convites?
       - Tambm no.
       - E diz que j est tudo sob controle? 
       Lara forou um sorriso:
       - Bem, at o dia da cerimnia, terei tempo de providenciar tudo isso.
       - Certo. - Caroline levantou-se para sair. - Bem, h algo mais que eu gostaria de lhe dizer...
       - Sim? - Lara indagou com a respirao suspensa.
       -  que considero Alan como um grande amigo. Alis,  como se ele fosse meu irmo mais velho, sabe? Voc vai se casar com ele... Portanto, gostaria de ser sua amiga tambm.
       Lara relaxou.
       - Obrigada, Caroline. Talvez possamos ser amigas, sim, claro. 
       Caroline abriu a porta para sair.
       - Voc  uma mulher bonita, Lara. E sabe, portanto, que a maioria das pessoas no compreende que possa haver uma verdadeira amizade entre um homem e uma mulher. Se ela for bonita ento... nem se fale. Pine Harbor  um bom local para se viver, mas as fofocas correm em demasia por aqui. Enfim, isso acontece em qualquer lugar. Conheci Alan h pouco mais de um ano e desde aquela poca no faltaram suposies, algumas at bastante maldosas, a respeito de meu relacionamento com ele. Mas no quero mentir para voc, Lara... No vou negar que, a princpio, considerei a possibilidade de ter um relacionamento mais ntimo com Alan. Afinal, ele  um homem atraente, brilhante, enfim... Bem, voc sabe disso melhor do que eu.
       Caroline fez uma pausa, antes de concluir:
       - Mas tanto Alan quanto eu percebemos rapidamente que entre ns havia apenas uma grande amizade, genuna e profunda. Eu diria que se trata mesmo de uma irmandade, sabe? Alan divide comigo seus momentos felizes, me pede conselhos, opinies... E vice-versa.
       Perplexa, Lara ouvia aquela jovem falando to naturalmente de Alan, como uma verdadeira amiga.
       Os ltimos resqucios de insegurana iam se dissipando,  medida que Caroline continuava a falar:
       - Na verdade, vim aqui para lhe dizer duas coisas importantes. Claro que meu oferecimento de ajud-la nos preparativos para a cerimnia continua em p, mas devo confessar que este foi apenas um pretexto para iniciar a conversa, j que no tinha a menor idia de como fazer para chegar em voc.
       - Duas coisas importantes, voc disse - Lara replicou, interessada. - E quais so?
       - A primeira  que Alan sempre a amou... Se tinha alguma dvida a esse respeito, pode ficar tranqila. Desde que conheci Alan, ele fala em voc. Gostaria que algum me amasse desse jeito...
       - Um dia voc encontrar algum, Caroline - Lara respondeu, sentindo uma incrvel simpatia por aquela jovem. - E quanta  segunda coisa?
       - Eu j disse. Queria que voc soubesse que a relao que tenho com Alan  apenas amizade. Uma grande amizade, que, alis, eu gostaria de cultivar entre ns duas tambm. - Caroline finalmente abriu a porta, mas Lara a reteve.
       - Por favor, no v agora. Fique um pouco mais, Caroline. Precisamos conversar. - Aps uma pausa, acrescentou: - Voc, que j ajudou duas irms a casarem, certamente saber me indicar um bom buf.
       Caroline sorriu.
       - Obrigada, Lara.
       - Sou eu quem deve agradecer.
       
       
       A noite caa quando Caroline e Lara despediram-se com a plena certeza de que uma poderosa amizade estava comeando a nascer.
       Comovido, Alan ouviu o relato de Lara sobre a visita de Caroline. A princpio ficou tenso, pois temia que um novo mal-entendido surgisse. Entretanto, a forma alegre como Lara falava sobre a jovem advogada logo o tranqilizou. E, quando finalmente Lara chegou ao fim da narrativa, os dois se abraaram, felizes.
       No entanto, uma nuvem de tristeza se interpunha entre ambos: no dia seguinte Lara partiria para Los Angeles e levaria pelo menos uma semana para voltar.
       - No sei mais como viver sem voc - disse Alan, atraindo-a para si. - E pensar que ficarei sozinho por algum tempo...  terrvel!
       - Venha comigo, querido - Lara insistiu, como j fizera muitas vezes, nos ltimos dias. - Venha, ser tudo to mais fcil se estivermos juntos...
       - No posso, Lara. Tenho casos urgentes a resolver durante esta semana, inclusive uma deciso importante, que ser levada ao tribunal na quarta-feira.
       - Vai ser angustiante ficar sem voc, Alan... - Ela suspirou, recostando a cabea contra o peito quente do homem que amava. - Se ao menos eu pudesse adiar a viagem...
       - Se voc fizer isso, teremos de adiar a cerimnia tambm.
       - Oh, isso no.
       - Querida, ns j tentamos todas as formas de evitar essa semana de separao. No temos outra sada. - Alan tentou sorrir. - De qualquer forma, teremos todo o tempo do mundo para ns.
       - No vejo a hora de nos casarmos. Os ltimos dias tm sido to atribulados que mal nos sobra tempo de ficarmos juntos.
       A conversa foi interrompida pela chegada da criada, que veio avisar que Lizbeth aguardava ambos para o jantar. Abraados, dirigiram-se ao encontro da velha senhora, que continuava com o bom humor de sempre, mas no conseguia disfarar a inquietao que sentia pelo fato de Lara partir na manh seguinte.
       - Voc voltar, no  querida? - indagou no final da refeio, tomando a mo de Lara num gesto de carinho.
       - Mas  claro que voltarei, querida - Lara afirmou, esquecendo-se de sua prpria dor para tranqilizar Lizbeth. - J lhe contei que consegui um bom acerto com Hap Harrigan, no? Vou escrever os textos aqui e envi-los  Califrnia pelo correio. No foi uma boa soluo?
       - Mas, se voc j combinou isso com o sr. Harrigan, por que precisa ir at l?
       - Tia Liz... - Alan interveio. -  verdade que Lara j fez esse acerto com o sr. Harrigan, mas agora ela precisa da concordncia da direo da emissora, entende?
       - Quer dizer que ainda no est tudo resolvido...
       - Tia Liz, est quase tudo certo. Mas ainda faltam alguns detalhes.
       - Alm do mais, preciso alugar meu apartamento, trazer algumas coisas para c, providenciar alguns documentos... - Lara fez um gesto vago. - Enfim, h uma srie de providncias que...
       - Que vo roub-la de ns por algum tempo - Lizbeth interrompeu-a com pesar.
       - Tia Liz, a senhora est se portando como uma criana - Alan comentou, num tom de censura. - Assim, s vai acabar complicando a situao. Acha que eu tambm no estou sofrendo com a partida de Lara? Acha que ela prpria no est triste por nos deixar?
       Lizbeth ficou em silncio por um longo momento. Ento, quando Alan j estava arrependido por t-la tratado de maneira to rspida, ela meneou a cabea lentamente, em concordncia.
       - Voc tem razo, rapaz. Estou me portando como uma criana teimosa e mimada. - Tomando as mos de ambos, Lizbeth concluiu: - Tudo bem, no vou importun-los mais com minhas rabugices de velha. - Voltando-se para Lara, acrescentou: - V em paz, querida. E volte assim que puder, pois ns estaremos esperando por voc, ansiosos. No  mesmo, Alan?
       - Claro que sim, tia Liz.
       Emocionada, Lara abraou com fora a velha senhora, que a afastou com delicadeza, murmurando:
       - Agora, me deixem sozinha, sim? Vocs dois precisam se despedir.
       - Ns vamos ficar um pouco mais com a senhora, tia Liz.
       - Nada disso. Quero dormir cedo, hoje. Lara, querida, ser que pode chamar a enfermeira e pedir que me ajude a ir para o quarto?
       Alan e Lara trocavam um olhar significativo. Era bvio que Lizbeth desejaria ficar ali mais tempo, mas queria que ambos aproveitassem ao mximo aquela noite... a ss!
CAPTULO IX

       Lara passou dias intensos em Los Angeles, cuidando de tudo de que precisava. De l mesmo ligou aos parentes, avisando do casamento e prometendo enviar os convites o mais depressa possvel.
       Fazia mesmo questo de preencher seus dias com vrios compromissos para no ter tempo de pensar em Alan. No entanto, era nas horas avanadas da noite que a solido a assaltava e a saudade a abatia como um duro golpe.
       J no sabia viver sem Alan, sem os carinhos, as conversas e o prazer de t-lo a seu lado. Falava com ele por telefone constantemente, mas isso s servia para provocar-lhe uma saudade ainda mais intensa.
       A emissora de tev onde Lara trabalhava a princpio se ops a sua proposta. No costumavam utilizar free-lance como redatores, e foi preciso apresentar muitos argumentos e obter o apoio decisivo de Hap Harrigan para convencer os diretores de que tudo sairia bem.
       Foram reunies exaustivas, que gastaram a energia e a pacincia de Lara...
       Quando j estava pensando em desistir do emprego de uma vez por todas, finalmente ela obteve o consentimento dos diretores do programa. Sim, ela poderia trabalhar como free-lance e enviar os textos pelo correio.
       Contudo, se algo desse errado... Hap Harrigan afirmou com veemncia:
       - Eu assumo toda a responsabilidade sobre essa deciso. 
       E ento os diretores no tiveram outro remdio, seno concordar com o arranjo. 
       Outro problema foi conseguir algum para ocupar o apartamento de Lara. Ela o mobiliara com todo o carinho e bom gosto que possua, por isso no queria alug-lo a qualquer pessoa.
       Na verdade, alm do lucro que poderia obter do aluguel, desejava encontrar um inquilino especial, que cuidasse daquele espao com muito carinho.
       Acabou descobrindo algum, finalmente: tratava-se de uma secretria que trabalhava na emissora. Chamava-se Annie, divorciara-se recentemente e estava  procura de um local para morar e reconstruir sua vida.
       Lara, que simpatizava bastante com a moa, ficou satisfeita com o arranjo. Tanto que cobrou apenas um aluguel simblico, cujo seis meses iniciais recebeu adiantado.
       
       
       Nos dias que se seguiram, Lara aproveitou para fazer algumas compras, embalar alguns objetos pessoais, despedir-se dos conhecidos, a quem, alis, entregou os convites pessoalmente. Enfim, uma srie de atividades a mantinha ocupada.
       Na noite de sexta-feira, aps fazer uma reserva no vo da manh seguinte para Nova York, ela saiu para um passeio pelas ruas de Los Angeles.
       Sentia-se num curioso estado de esprito. No lamentava em absoluto o fato de abandonar aquela cidade que to bem a acolhera, seis anos atrs. Entretanto, sabia que jamais se esqueceria de l, dos conhecidos, da carreira, do corre-corre incessante que por vezes era terrvel... Mesmo assim amava Los Angeles, sentia-se parte daquele lugar.
       Ali conhecera tantas coisas, ali se transformara de jovem ingnua numa pessoa mais experiente. Quando chegara, era apenas uma garota sonhadora. Uma entre tantas pessoas que vinham para a Califrnia atradas pelo esplendor de Hollywood, ansiosas por uma chance.
       Agora, era uma mulher feita, confiante em sua capacidade. Uma mulher que em breve comearia vida nova, mas que nunca desprezaria o que aprendera naquela metrpole agitada e por vezes desumana.
       Caminhando sem destino pelas ruas, olhando as luzes de non, sabendo que levaria muito tempo para tornar a v-las, Lara acabou entrando num restaurante, um dos tantos que havia nas proximidades de Hollywood, cujos principais frequentadores pertenciam  classe artstica.
       Cumprimentando um ou outro conhecido, Lara passou por entre as mesas e escolheu um lugar prximo ao pequeno palco, onde um homem de cabelos j grisalhos tocava velhas composies de Glenn Miller.
       O msico saudou-a com um gesto de cabea e ela sorriu. H anos que o conhecia e gostaria de ouvi-lo tocar.
       S que agora as canes romnticas j no lhe traziam a lembrana de Jason, do momento trgico que durante seis anos rememorara. Agora, ouvindo os acordes pungentes de Moonligth Serenade, ela s pensavam em Alan e no momento em que voltaria a seus braos.
       Lara pediu um drinque e ficou ali por muito tempo, analisando os anos vividos naquele bairro, as emoes, as derrotas, as conquistas... Tudo aquilo j fazia parte do passado. Um belo passado, por sinal.
       No entanto, o presente parecia-lhe ainda mais significativo e o futuro, ento, assemelhava-se a uma incgnita cheia de surpresas felizes...
       
       
       O avio descreveu uma curva e pousou suavemente na pista do aeroporto Kennedy. Lara suspirou, pensando em como as coisas haviam mudado, desde trs semanas atrs. Da outra vez em que chegara ali, os fantasmas do passado ainda a perturbavam e a imagem de Jason estava vivida em sua mente.
       Em to pouco tempo, porm, tudo se transformara em algo novo e inesperado. E agora era por Alan que ela suspirava. Era dele o rosto que procurava na multido, ao caminhar rumo ao salo de desembarque dos passageiros.
       - Lara!
       Ela voltou-se e atirou-se nos braos de Alan, que a abraava com fora, mergulhando o rosto nos cabelos longos e negros, afastando-a de si para v-la melhor... E ento voltava a estreit-la contra o peito.
       - Meu Deus, eu pensei que fosse morrer de saudade - ele murmurou, antes de beij-la longamente.
       - Alan... - era tudo o que ela podia dizer, tamanha a emoo que a invadia.
       - Prometa que nunca mais vamos ficar tanto tempo separados - ele pediu, tomando-lhe o rosto entre as mos.
       - Nunca mais ficaremos longe um do outro, querido. Nunca mais, pode acreditar.
       Uma grande multido lotava as dependncias do aeroporto. Fazia muito calor, sobretudo quando saram para o ar livre.
       - Voc est com sede? - Alan perguntou. - Quer tomar alguma coisa?
       - No. S quero voltar para casa... Para nossa casa. Como vai Lizbeth? Est passando bem?
       - Muito bem, mas ficou um bocado rabugenta nesses dias em que voc esteve ausente - Alan respondeu, ajeitando a bagagem de Lara no porta-malas do Mercedes. Curioso, apontou para uma grande caixa. - Ei, o que  isso?
       - Tente adivinhar. - Ela sorriu, marota. 
       Alan abraou-a.
       -  seu vestido de noiva. Acertei?
       - Claro.
       - Estou ansioso para v-lo.
       - Nada disso. Voc s poder fazer isso no dia do casamento.
       - Verdade?
       - Exatamente. No sei se  superstio, mas dizem que d azar se o noivo ver o vestido antes da cerimnia. Duvido, mas no que arriscar de jeito nenhum.
       - Querida, nada no mundo poder impedir nossa felicidade.
       - Eu sei, Alan...
       Havia um grande congestionamento na rodovia que conduzia  Nova Inglaterra, mas nem Lara nem Alan se irritaram com isso.
       Afinal, estavam juntos e j no tinham pressa de nada... Exceto de ficarem a ss, num local isolado, onde pudessem trocar carcias mais ousadas... Contudo, enquanto isso, iam se beijando, rindo por qualquer motivo, embalados por aquela felicidade gratuita que s os namorados conhecem.
       A fila de carros avanava lentamente, devido a uma batida sem conseqncias graves entre uma caminhonete e um nibus. Rindo dos que praguejavam ou pressionavam as buzinas com toda a fora, Alan e Lara contavam um ao outro o que haviam feito nos ltimos dias, trocavam beijos, promessas, risos...  
       - Meu Deus, que gente mal-humorada! - ela comentou, a certa altura, tapando os ouvidos por causa do barulho incessante das buzinas. - Ser que no compreendem que essa barulheira s serve para tensionar ainda mais as pessoas?
       Alan enlaou-a pela cintura e, atraindo-a para si, beijou-lhe a pele macia do pescoo.
       - Por mim, ficarei aqui at amanh, se for preciso. No me importo nem um pouco com essa demora, desde que voc esteja comigo.
       - Alan...
       - O que foi, querida?
       - Eu... tomei uma deciso.
       - Sim?
       - Quero ser sua - Lara afirmou, enrubescendo. - Quero ser sua hoje mesmo, querido.
       - O qu?
       - No faz sentido algum ficarmos sufocando esse desejo por mais tempo. Quero me tornar sua mulher, Alan.
       - Oh, Lara querida... s vezes me pergunto se realmente mereo toda essa felicidade.
       Aps um longo momento, ele sorriu e pressionou a buzina com fora.
       - Ei, o que est fazendo?
       - Buzinando, por qu?
       - Por que pergunto eu. 
       Ele riu.
       - Ora, estou com muita pressa de chegar, sra. Crane. Depois do que voc acaba de dizer, estou realmente morrendo de vontade de chegar em casa.
       - Seu grande maroto.
       
       
       Levaram cerca de uma hora para passar pelo trecho congestionado e ento tomaram uma estrada vicinal, bem mais tranquila. Foi com um sentimento de satisfao que Lara contemplou a cidade  beira-mar.
       Agora, j no sentia medo algum, ao contrrio: tinha certeza de que a vida, dali por diante, s lhe traria boas surpresas. E, de fato, uma surpresa os aguardava... E no era das melhores. 
       Alan estacionou em frente  varanda. Um criado aproximou-se para levar as bagagens de Lara at a sute, enquanto Alan a conduzia pelo interior do casaro mostrando-lhe, orgulhoso, as reformas que efetuara.	
       As paredes tinham sido pintadas em tons de marfim, tornando o ambiente mais aconchegante. Alm disso, Alan trocara cortinas, tapetes e outros objetos. O casaro adquirira um ar bem mais alegre.
       - Ficou lindo! - Lara exclamou, eufrica.
       - E esse seu sorriso  exatamente a recompensa que eu esperava. Voc gostou mesmo?
       - Adorei.
       - timo!
       - Agora quero ver Lizbeth - ela afirmou, ansiosa. - Estou morrendo de saudade...
       - Sinto muito, querida. Mas a esta hora tia Liz ainda deve estar repousando.
       - Oh,  mesmo.
       - Mas se quiser que eu a acorde...
       - Nada disso, meu bem. Vamos esperar que ela acorde sozinha.
       - Escute... enquanto isso, que tal um gole de champanhe, l no terrao? Assim comemoramos sua volta.
       - Boa idia. Mas antes preciso trocar de roupa e...
       - Depois - ele interrompeu, abraando-a. - Primeiro, vamos fazer um brinde... Um brinde a ns e  vida que estamos iniciando.
       - Certo - Lara aquiesceu, sorrindo. - Voc  quem manda, sr. Crane.
       - Ento me espere no terrao. Vou buscar o champanhe e j volto.
       Momentos depois, Alan retornava com a garrafa j aberta e duas taas.
       - Aqui est, querida... - Sentou-se em frente a Lara e serviu o champanhe. - Faamos um brinde... A nossa sade.
       Lara sorriu, mas de repente seu rosto se contraiu numa expresso de espanto. Interrompendo o gesto de levar a taa aos lbios, ela apoiou-se na mesa e sentiu que ia desfalecer.
       - Lara... O que foi? - Alan perguntou, assustado. - Est se sentindo mal? - Ento ele voltou-se e deparou com Jason Crane, que se aproximava. - Voc!
       - Ol, mano... Aqui estou, o filho prdigo de volta ao lar - Jason respondeu com um sorriso insolente no rosto de belos traos. Ento observou Lara por um longo momento, antes de comentar: - Doura, eu realmente no esperava encontr-la aqui... Voc est uma gracinha, sabia?
       Incapaz de pronunciar uma palavra, Lara apenas continuou a olh-lo, com uma expresso atnita.
       Por incrvel que pudesse parecer, Jason no mudara muito nos ltimos anos. Continuava belo e rebelde, com aquele sorriso desafiador de sempre, a mesma elegncia displicente. No podia negar que ele continuava muito bonito, mas era o mesmo que contemplar uma esttua. A beleza de Jason era superficial... Tratava-se apenas de um corpo e um rosto bonitos, como tantos outros. Faltava nele aquela aura de fora e magia que emanava de Alan. Faltava-lhe o encanto, a delicadeza de sentimentos, a coragem... E pela segunda vez Lara constatou que teria cometido um erro verdadeiramente grave, talvez irremedivel, se houvesse se casado com Jason.
       Lara suspirou. Por tantas vezes revoltara-se contra Jason por ele t-la abandonado no altar! Agora, porm, quase se sentia tentada a agradecer.
       - Vocs dois esto plidos como fantasmas - Jason comentou, depositando no cho duas valises, que eram sua nica bagagem. - Por acaso no esto nem um pouquinho felizes por me verem de volta?
       - Como tem passado, Jason? - Alan foi o primeiro a se recuperar.
       Muito  vontade, o mais novo dos Crane puxou uma cadeira e sentou-se. Era como se no houvesse estado ausente por tanto tempo. Agia com a naturalidade de quem sempre vivera ali e estivesse de volta aps ter se ausentado por um fim de semana.
       Sorriu para Lara, mas ela no correspondeu. Apenas continuou a olh-lo, as mos crispadas de tenso, o corpo retesado na cadeira. Claro que aquele homem j nada significava para ela. No entanto, o fato de reencontr-lo de repente, aps tantos anos, abalava-a profundamente.
       Mais ainda a abalava o olhar crtico de Alan. Poderia jurar que ele estava desconfiado, Lara pensou, assustada. Virou-se para fit-lo e ento leu a dvida em seus olhos: sim, Alan duvidava que ela o amasse. Na verdade, parecia certo de que era Jason quem ela desejava.
       Lara suspirou: a suspeita era absurda. Ser que j no provara a Alan que o amava? As carcias, as conversas, a saudade dos ltimos dias j no tinham sido suficientes para Alan acreditar que era com ele que Lara pretendia se casar, construir uma vida em comum, realizar os sonhos?
       "Por qu?", ela se perguntava agora. "Por que Alan se deixa abalar tanto pela presena de Jason?"
       E era exatamente esta pergunta que ele se fazia, com relao a Lara. Com o corao cheio de uma angstia insuportvel, Alan via os sonhos de seu casamento desmoronarem... Tudo acabado. Bastara a presena de Jason para que Lara o esquecesse por completo.
       Ignorando a tenso crescente entre Lara e Alan, Jason recostou-se na cadeira.
       - Pois , tenho andado por a, conhecido um pouco de tudo. Sa do pas, dei uma volta pela Europa e estou aqui novamente. Vou ver se descanso por alguns dias, para depois tornar a partir. Dessa vez pretendo fazer uma turn pela Amrica Latina. Dizem que h lugares lindos por l.
       Com um entusiasmo quase juvenil, Jason narrava suas aventuras, indiferente ao clima de nervosismo que aumentava a cada segundo.
       Lara, apesar de muito ansiosa, no conseguiu evitar um sentimento de ternura por aquele homem imaturo, que lhe parecia quase uma criana. E pensar que sentira tanta raiva de Jason Crane!
       Inconseqente, rebelde e egocntrico, Jason no enxergava nada alm de seus prprios valores. E no era uma pessoa m, ao contrrio: tinha bons sentimentos e alegria de viver, e essas ainda continuavam a ser suas melhores qualidades...
       Entretanto, no era, em absoluto, o tipo de homem com quem ela se casaria. Jason era imaturo. Faltava-lhe, entre outras coisas, descobrir que havia mais pessoas no mundo alm dele prprio...
       Com essas concluses, Lara sentiu-se relaxar. Agora, mais do que nunca, tinha certeza de que Jason nunca poderia turvar sua felicidade ao lado de Alan.
       Nem sequer guardava a menor ponta de remorso pelo que ele lhe fizera, seis anos atrs. Sua atitude fora digna de um garoto inconseqente, como, alis, ele continuava a ser, apesar de ter se passado tanto tempo.
       - Mas, digam-me, como vai a vida entediante aqui em Pine Harbor? - Jason indagou com aquele sorriso provocante que tanto o caracterizava.
       Alan replicou, num tom tenso:
       - A vida em nossa cidade no  entediante. 
       Jason deu de ombros.
       - Questo de ponto de vista. Eu no suportaria viver nessa paradeira, jamais!
       - Voc j deixou isso bem claro, nos ltimos tempos - Alan respondeu, entre dentes.
       - No me venha com esta pose de irmo mais velho, Alan. J sou bastante crescido para levar puxes de orelha.
       - Ento no se porte como um adolescente rebelde.
       Jason lanou-lhe um olhar de desdm.
       - Voc continua o mesmo chato de sempre.
       - Dispenso seus elogios - Alan retrucou, num tom cortante. - Apenas lhe peo que se comporte bem diante de tia Lizbeth, que, alis, sofreu um derrame algum tempo atrs.
       - Minha nossa! - Jason exclamou, parecendo sinceramente chocado. - Por que voc no me avisou, Alan?
       - E alguma vez voc se preocupou em nos informar seu endereo, seu cabea-dura?
       - Tudo bem. Isso no importa agora. Onde est tia Liz? Quero v-la.
       - Ela est repousando. Mas felizmente melhorou muito, desde que Lara chegou.
        meno de seu nome, Lara virou-se sorrindo para Alan. Contudo, ele com os olhos fixos em Jason, parecia firmemente disposto a ignor-la.
       - Desde que Lara chegou... - Jason repetiu, pensativo. - Quer dizer que voc est morando fora deste fim de mundo? - indagou, surpreso.
       - Morei algum tempo em Los Angeles - ela respondeu com simplicidade.
       - Fez muito bem. O mundo  grande... Ficar enterrada aqui, neste lugar montono onde nada de novo acontece,  o mesmo que se exilar, sabe? O mesmo que renunciar s boas coisas da vida.
       - No concordo com voc - ela replicou, num tom calmo. - Creio que a vida pode ser bela ou no em qualquer lugar do mundo. Isso s depende da gente, de nosso mundo particular.
       Com um misto de impotncia e raiva diante daquela situao, Alan acompanhava a conversa em silncio. Pensamentos sombrios o perturbavam. A naturalidade com que Lara se dirigia a Jason, longe de tranqiliz-lo, s o feria ainda mais.
       "Foram feitos um para o outro", ele disse para si mesmo, pensando no inferno em que sua vida se transformaria, dali por diante.
       - Mas voc h de convir, doura, que h certos lugares que nos ajudam a ser, digamos, mais dinmicos. E outros nos deprimem, como  o caso de Pine Harbor. Isto aqui  a prpria imagem da desolao.
       - Se voc chama de desolao essa natureza ainda intocada pela mo do homem... - Lara argumentou - ento nada temos a discutir.
       Jason fitou-a por um momento, antes de comentar: 
       - Voc mudou um bocado, sabia?
       - Todos ns mudamos.
       - Est mais... rspida. Mais incisiva, talvez, eu no sei explicar. - Com um sorriso maroto, indagou: - Ou ser que esse jeito de falar comigo no  um restinho de mgoa sobre...
       Lara no o deixou completar a frase:
       - De modo algum, Jason. O que aconteceu no passado deve pertencer ao passado, certo?
       - Certo. Quer dizer ento que...
       - Que no tenho nada para desculpar voc, e assunto encerrado!
       Alan sorveu um longo gole de champanhe. Aquilo era demais. Lara no apenas recebia Jason com um carinho indisfarvel como tambm o perdoava totalmente pelo sofrimento e vergonha que sua atitude lhe causara, h seis anos.
       "Alan Crane!", disse para si mesmo. "Se voc ainda tem um mnimo de orgulho, admita a derrota e caia fora do preo!"
       Lara voltou-se uma vez mais para Alan, buscando sua cumplicidade. No entanto, ele parecia fechado em si mesmo.
       "Ainda?", ela se perguntou. "Alan continua enciumado, mesmo depois de me ver agindo com tanta naturalidade diante de Jason? Ser que isso no  o bastante para provar que j no sinto mais nada por Jason?"
       O recm-chegado, sem nenhuma cerimnia, pegou a taa em frente a Lara e levou-a aos lbios. Sorveu um longo gole e sorriu.
       - Hum... gosto muito de champanhe. E esta  das boas marcas! - Olhando de um para o outro, indagou: - Vocs por acaso estavam comemorando alguma coisa?
       - Sim - Lara aquiesceu, sorrindo para Alan, que continuava com o rosto contrado. - Estvamos comemorando nosso casamento.
       - O qu?! - Jason indagou, perplexo. - Vocs... Vocs vo se casar?
       - Vamos - Lara respondeu, calmamente.
       - amos - disse Alan, levantando-se e afastando-se a passos largos em direo ao estacionamento.
       Atnita, Lara o viu entrar no carro e arrancar em alta velocidade. Queria det-lo, mas simplesmente no conseguia se mover.
       - Incrvel - Jason murmurou. - Escute, que bicho mordeu meu querido irmo?
       Com um terrvel pressentimento, Lara apenas conseguiu responder:
       - Voc escolheu um pssimo momento para voltar, Jason.
       - Mas...
       - Escute, voc por acaso veio de carro?
       - Sim. Por qu?
       - Empreste-me as chaves. Preciso ir atrs de Alan.
       - Aqui est - ele aquiesceu, retirando do bolso um chaveiro. -  um jipe que aluguei, ao chegar em Pine Harbor. Est l embaixo, junto ao porto da propriedade.
       Murmurando um agradecimento, Lara precipitou-se ladeira abaixo. No fazia a menor idia de onde Alan poderia estar ou para onde pretendia ir. Contudo, sabia que precisava ficar a ss com ele e dizer-lhe o quanto o amava.
       - Parece que ficaram todos loucos, por aqui - Jason comentou para si. Ento se virou e viu Lizbeth aproximando-se devagar, apoiada a uma jovem enfermeira. - Tia Liz! - exclamou, correndo para abraar a velha senhora. - Estou de volta, tia Liz.
       A velha senhora estacou e piscou os olhos, como se no acreditasse no que estava vendo.
       - Jason...  voc mesmo?
       - Claro. - Ele sorria, radiante. - E ento? Aposto que estava morrendo de saudade de mim.
       Emocionada, Lizbeth apenas pde responder:
       - Seu grande maroto... Por onde voc andou?
       - Por ai, pela vida! - Tomando a velha senhora no colo, ele levou-a at a varanda e colocou-a gentilmente numa cadeira, sob os protestos divertidos de Lizbeth e a perplexidade da enfermeira. Agora me conte como vai minha herona predileta.
       - Menino levado! - Lizbeth exclamou, brincalhona. - Como acha que tenho passado, sem nunca receber notcias suas?
       - Bem, agora j estou aqui. E vou lhe contar tudo o que andei fazendo nos ltimos tempos.
       Lizbeth sorriu para o sobrinho.
       - Imagino as histrias cabeludas que vai contar... Meu Deus, hoje  mesmo um dia especial. Voc chegando de repente, e Lara e Alan que no devem tardar... Lizbeth fez uma pausa e acrescentou, com ar pensativo: - Olhe, quero que saiba que os dois vo se casar daqui a alguns dias. A princpio eles podero reagir mal a sua presena, mas depois tenho certeza de que tudo ficar bem. Logo os Crane voltaro a compor a grande famlia que sempre foram.
       Jason ia dizer que j encontrara Alan e Lara, mas resolveu calar-se a tempo. No queria perturbar Lizbeth com a situao constrangedora que ento ocorrera. E tampouco pretendia contar-lhe que s viera por alguns dias e que partiria dentro de no mximo uma semana.
        
       
       
       
 CAPTULO X

       Depois de dirigir por quase uma hora pelas ruas tranqilas de Pine Harbor, bem como pelos arredores, Lara comeava a desistir da busca.
       No tinha a menor idia de onde Alan poderia estar e esgotara todas as possibilidades. Certamente no o encontraria no escritrio, que nem sequer funcionava aos sbados. No entanto, resolvera ir at l mesmo assim.
       No o encontrou tampouco no restaurante aonde tinham ido h dias, nem em lugar algum.
       Alan simplesmente desaparecera e Lara,  beira do pnico, no sabia mais o que fazer.
       Poderia voltar para casa e aguard-lo, mas sabia de antemo que no suportaria ficar esperando por ele, que talvez nem mesmo regressasse aquela noite.
       "O que eu disse de errado para Alan reagir daquele modo?", ela se perguntava infinitas vezes, sem encontrar uma resposta.
       No adiantava ficar se perdendo em cogitaes agora. Tinha de encontrar Alan, e rpido!
       Ento, de sbito ocorreu-lhe uma idia. E uma esperana tnue acendeu-se em seu ntimo: Caroline Sinclair. Talvez ela soubesse do paradeiro de Alan.
       Com mos trmulas, Lara folheou a agenda onde anotara o nmero do telefone de Caroline. Estacionou o jipe e correu para um telefone pblico.
       - Al? Por favor, eu queria falar com a dra. Caroline Sinclair.
       -  ela.
       - Caroline? Aqui  Lara. Ser que poderamos nos ver por alguns minutos? - indagou, ansiosa. -  urgente.
       Caroline consultou o relgio. J sabia do que se tratava.
       - Tudo bem, Lara. Onde voc est?
       - No centro da cidade. Como fao para ir at a?
       -  melhor que eu v encontr-la. Voc pode me esperar... digamos, no Viking?
       - Claro. Mas eu no queria incomod-la.
       - Esquea. Chegarei dentro de uns trinta minutos, mais ou menos, certo?
       - Certo. Obrigada, Caroline. 
       - No h de qu - Caroline respondeu, desligando.
       Caroline vestiu short e camiseta, pegou um mai, uma sada-de-banho e guardou-os numa sacola. Felizmente ela e Lara tinham manequins parecidos, de modo que seu traje de banho cairia bem em Lara.
       Abrindo a gaveta de um pequeno console, retirou um molho de chaves e guardou-o na bolsa. Estava pronta. Sabia exatamente o que Lara ia lhe perguntar. E sabia tambm, desde j, que a ajudaria.
       Podia bem ser que Alan nunca mais a perdoasse... Ou a agradecesse... Quem sabe?
       - Desculpe, amigo... - ela murmurou, como se falasse para si mesma, enquanto abria a porta para sair - mas as mulheres devem ser solidrias entre si.
       Minutos depois, deixava para trs os portes do condomnio fechado onde residia para encontrar-se com Lara.
       O namorado de Caroline sempre costumava dizer que ela possua um dom especial para se meter em encrencas. E, naquele momento, Caroline sentia-se obrigada a concordar com ele.
       
       Caroline Sinclair chegou antes da meia hora prevista e encontrou Lara inconsolvel, tomando um suco de frutas no Viking. Estava abatida e Caroline tocou-lhe o ombro, num gesto de solidariedade.
       - Ei, voc no pode ficar assim, deprimida. No final tudo dar certo, acredite.
       Lara ergueu o rosto e contemplou por um momento a garota a sua frente. Ento concluiu que Caroline j sabia de tudo.
       - Voc viu Alan? - a pergunta foi feita num tom afirmativo. - Por favor, diga onde ele est. Preciso encontr-lo, e rpido.
       Sentando-se  mesa, Caroline chamou o garom com um gesto e pediu dois drinques.
       - Calma. Antes de mais nada voc precisa relaxar.
       - Voc no compreende? - Lara replicou, indiferente s lagrimas que lhe escorriam pelo rosto. - Aconteceu algo terrvel!
       Com voz trmula, narrou de um s flego a chegada de Jason, o clima de tenso entre os trs e a sada inexplicvel de Alan.
       - Ele j me contou, querida - disse Caroline, enquanto agradecia com um gesto de cabea os drinques que o garom acabava de servir.
       - Alan est em sua casa?
       - Esteve. Pobre amigo... Voc no imagina o quanto estava sofrendo com toda essa situao. Alis, devo reconhecer que a princpio fiquei furiosa com voc, Lara.
       - Por qu? O que foi que Alan lhe disse, afinal?
       - Exatamente o que voc acaba de me contar. S que, numa situao como essa, as pessoas tm pontos de vista diferentes... E isso acaba provocando terrveis mal-entendidos.
       - Preciso encontrar Alan - Lara murmurou. - Preciso saber o que foi que fiz para mago-lo tanto.
       - Voc deu toda a ateno do mundo para Jason, s isso. E Alan se sentiu ferido em seu orgulho. Isso sem contar que Alan, neste momento, tem certeza absoluta de que voc jamais deixou de amar Jason. Santo Deus, que enrascada!
       - Em primeiro lugar, eu no dei "toda a ateno do mundo" para Jason, como voc diz. Eu apenas conversei com ele, com toda a naturalidade. E achei que Alan ficaria feliz por ver que a presena de Jason j no me abalava como antes.
       - Pois o efeito que essa sua... digamos, naturalidade causou em Alan foi justamente o oposto do que voc esperava.
       - Oh, no! Mas como Alan pde ser to cego a esse respeito? - Lara replicou, angustiada. - Ser que ele ainda no acredita que eu o amo? Que eu o amo de todo o corao, como jamais amei nenhum outro homem?
       Caroline sorveu um longo gole e s ento, inclinando-se sobre a mesa, indagou:
       - Ento voc o ama? De verdade?
       - Mas  claro que sim!
       - E alguma vez lhe disse isso?
       - Ora, Alan j tem provas mais que suficientes de meu amor por ele.
       - Seja mais exata, Lara. Voc j chegou para ele e disse: "Eu te amo"? Fez isso alguma vez?
       Lara baixou os olhos.
       - Eu... De certo modo j disse, sim, mas no com essas palavras. Bem, para ser franca eu... eu estava esperando um momento mais ntimo para confessar isso.
       - Obrigada por ter sido sincera - Caroline respondeu, recostando-se na cadeira. - Pois foi a, minha cara, que voc errou.
       - Como assim?
       - Alan desabafou comigo hoje, em minha casa. Estava arrasado com tudo o que aconteceu e sentia-se o ltimo dos homens. Ento, eu tentei defender voc e discuti com ele durante muito tempo, dizendo que voc o amava. Mas ento ele respondeu que nunca tinha ouvido isso de seus prprios lbios.
       - Ento foi por isso...
       - Alan sentiu-se rejeitado! Na verdade, ele est furioso, porque julga que voc apenas o usou para esquecer Jason. E, agora que Jason apareceu, Alan acredita que voc vai cancelar o casamento. 
       Lara levantou-se de um salto.
       - Caroline, pelo amor de Deus, diga onde ele est! Eu tenho de v-lo para desfazer esse mal-entendido. E rpido.
       A outra acenou em concordncia.
       - Certo, ns vamos at l. Mas antes acabe seu drinque. Bem, eu prometi a Alan que jamais revelaria a voc o lugar onde ele se encontra. Mas no tenho coragem de cumprir a promessa...
       - Por favor... - Lara pediu, num tom de splica. - Vamos! Agora!
       Caroline consultou o relgio.
       - Desculpe, mas ainda teremos de esperar uns dez minutos. 
        beira da histeria, Lara apenas conseguiu balbuciar:
       - Escute, Caroline, sei que voc est agindo como uma verdadeira amiga, mas no agento mais esse suspense.
       - Por quem voc me toma, querida? - a outra replicou, aps sorver o ltimo gole de seu drinque. - Por uma pessoa sdica ou algo assim? Se estou fazendo voc esperar,  porque meu barco s ficar pronto s quatro horas. E ainda temos dez minutos at l.
       - O qu?
       - Bem, Alan saiu no Sorriso de Lara e a esta hora deve estar em minha casa de praia, numa pequena ilha ao sul de Minawin. Antes de vir encontr-la, passei pela marina e pedi ao capito que preparasse uma escuna para ns.  uma embarcao lenta, mas segura. Ele me disse que isso levaria uns quarenta minutos e...
       - Oh, desculpe, Caroline - Lara interrompeu, envergonhada. - Estou sendo grosseira e impaciente, quando s lhe devo agradecimentos pelo que est fazendo por mim.
       - No exagere. O fato  que gosto muito de Alan... E gosto de voc tambm. S quero que sejam felizes, o que, alis, vocs bem merecem. Vamos indo, agora?
       - Vamos l! - Lara concordou, chamando o garom e pagando os drinques.
       
       
       A escuna afastava-se lentamente do cais de Pine Harbor, deslizando com suavidade sobre as guas azuis e calmas. O mar assemelhava-se a um grande espelho. Nem sequer uma leve brisa soprava.	
       Debruada na amurada, Lara contemplava o horizonte e a custo continha a impacincia. Quanto tempo levaria para chegar  ilha naquela velocidade?
       "Calma", ela se ordenava. "O momento de ver Alan est prximo e ficar ansiosa no ajuda em nada!"
       Precisava de todas suas foras para conversar longamente e desfazer aquele terrvel mal-entendido.
       A escuna singrava as guas do mar e a tarde estava magnfica. O cu, de um azul lmpido, parecia confundir-se com as guas l longe, na linha do horizonte. Um cardume de golfinhos brincalhes nadava prximo  escuna, e por vezes alguns saltavam, oferecendo um espetculo singular, que Lara sempre apreciara. Contudo, naquele momento nenhuma dessas belezas naturais conseguia acalm-la, embora a comovesse bastante.
       - Escute, esse nervosismo no vai ajud-la em nada, sabe? - Caroline aproximou-se e tocou-lhe o brao. - Por que no vem sentar um pouco? - sugeriu, apontando as espreguiadeiras dispostas no convs.
       Lara respondeu, tentando sorrir.
       - Obrigada, mas prefiro ficar aqui, contemplando a paisagem.
       - Mas, querida, voc no est contemplando absolutamente nada, ao contrrio: est ficando cada vez mais tensa, em vez de tentar relaxar, para estar bem calma e bonita quando encontrar Alan.
       Lara aquiesceu e sentou-se numa espreguiadeira, mas nem por isso sentiu-se melhor. Nada do que fizesse a ajudaria a acalmar-se. S mesmo quando se defrontasse com Alan, quando pudesse esclarecer tudo, tiraria dos ombros aquele peso.
       Por ora, s lhe restava continuar ali, tentando inutilmente controlar a angstia da espera.
       Quando avistaram finalmente a ilha de Minawin  em seguida a ilhota onde Alan se encontrava, a tarde j caa, tingindo o cu de tons que iam do prpura ao dourado. O espetculo era impressionante.
       Recortado contra a luz do poente, o Sorriso de Lara oscilava sobre as guas.
       Lentamente, a escuna de Caroline fez uma manobra e passou, entre o banco de recifes e o Sorriso de Lara, indo parar a cerca de cinqenta metros da ilhota.
       Caroline sugeriu, entregando a Lara uma sacola com um mai e uma sada-de-banho.
       -  melhor vestir isso.
       - Voc parece ter pensado em tudo, no? - Ela sorriu, agradecida. - Onde posso me trocar?
       - L embaixo, em minha cabine particular.
       Lara voltou em poucos minutos. O mai azul-marinho de Caroline cara-lhe perfeitamente bem.
       - Vou pedir ao capito que desa o bote para lev-la  praia - disse Caroline.
       - Voc no vir comigo?
       - No, querida. Acho que vocs dois precisam ter uma conversa muito particular, e minha presena por aqui  absolutamente desnecessria. A propsito, voc no ter dificuldade alguma para encontrar a cabana. Vire  direita, logo depois das pedras, e ento ver trs trilhas.
       - Eu j estive nessa ilha, h muito tempo. E conheo as trilhas s quais voc se refere. Qual delas conduz  cabana?
       - A da esquerda. Caminhe por essa trilha e, depois de uns cem metros, avistar a cabana.
       - Obrigada por tudo, Caroline. Voc... j vai embora?
       - Ainda no. Vou aguardar sua volta... Por enquanto. Mas ficarei aqui, na escuna.
       - Quer dizer que serei a nica a desembarcar?
       - Sim.
       - Nesse caso, acho que posso dispensar o bote. - Jogando a sada-de-banho sobre uma espreguiadeira, subiu na amurada e despediu-se de Caroline: - Obrigada por tudo, mais uma vez. - E saltou.
       - Ei, espere! - Caroline gritou, surpresa. Ento, com um sorriso, acompanhou a trajetria de Lara at a praia. - Sua grande maluca... Boa sorte para voc e Alan.
       
       
       Lara nadou os poucos metros que a separavam da ilhota e sentiu-se ofegante quanto pisou a areia da praia. A ansiedade em que se encontrava tornava-lhe difcil respirar compassadamente, e ela tinha a ntida sensao de que nadara pelo menos quinhentos metros.
       Com o corao descompassado, tomou a direo das pedras. A mar estava subindo, e por isso ela caminhava com muita cautela, recebendo no corpo os respingos das ondas que se chocavam contra as rochas, tomando cuidado para no escorregar. Se desse um passo em falso e casse, poderia se machucar seriamente.
       Quando finalmente conseguiu transpor a barreira de pedras e sair no outro lado da praia, Lara suspirou aliviada. Agora faltava pouco para encontrar-se com Alan. Faltava pouco para recuperar a felicidade que perdera.
       Dobrando  direita, Lara no tardou a encontrar as trs trilhas. Escolheu a da esquerda e ento estacou por um momento: l estava a cabana, a poucos passos de distncia.
       Quase correndo, Lara aproximou-se e bateu  porta de madeira rstica. Aguardou, com o corao aos saltos, que Alan viesse atend-la, mas no obteve resposta. Insistiu outra vez, com mais fora. Silncio.
       Inquieta, contornou a construo e encontrou uma janela encostada. Forou-a e observou a sala s escuras.
       Reconheceu a camisa de Alan jogada sobre um sof de alvenaria e chamou mais uma vez. Entretanto, ningum respondeu...
       Voltando sobre seus prprios passos, Lara concluiu que ele s poderia estar na praia, ou ento caminhando por alguma das outras trilhas que se dirigiam para o interior da ilha.
       Quando criana, Lara fizera muitos passeios ali, em companhia de Jason e Lizbeth. Sabia que uma das trilhas conduzia a uma grande cachoeira, que era um dos pontos mais freqentados pelos moradores da regio. 
       A outra levava ao lado oposto da ilha, a uma praia de areias escuras, consideradas como medicinais. Nos fins de semana muita gente visitava aquele local, em busca dos efeitos benignos daquelas areias.
       "Qual das duas trilhas Alan escolheu, afinal?", Lara perguntou-se, inquieta.
       Pensou em tomar qualquer uma delas, que de resto no poderiam ter mudado tanto nos ltimos anos. No entanto, a tarde j ia pelo fim e Lara, sem contar sequer com uma lanterna para auxili-la, sentiu medo de arriscar-se. H muito tempo que no freqentava aquele lugar e certamente poderia perder-se no escuro.
       No havia outra alternativa, seno conter um pouco mais a ansiedade e aguardar que Alan voltasse. Assim, ela decidiu que um outro banho de mar a ajudaria a suportar a espera.
       Chegou  praia e ento, a cerca de uma centena de metros, viu algum se aproximando.
       Era Alan, s podia ser... Incapaz de se conter, Lara correu naquela direo.
       - Alan! Oh, Deus, que bom encontrar voc! 
       Se ele se sobressaltou, no deu a menor demonstrao. Fitou-a com um olhar glido e continuou andando, como se Lara nem sequer existisse.
       - Alan, h certas coisas que preciso lhe dizer - Lara insistiu, caminhando ao lado dele. - Sei que deve estar zangado comigo, mas, depois de uma conversa s claras, tudo ficar esclarecido. Eu prometo.
       Impassvel, ele caminhava em direo  cabana.
       - Olhe, uma vez eu o julguei mal e voc me pediu uma chance para esclarecer a situao. - Ela segurou-lhe o brao. - Agora tambm lhe peo que me escute. Depois, se no acreditar em mim, pode me mandar embora.
       Alan desvencilhou-se dela com um gesto seco e olhou distraidamente para o mar. A escuna de Caroline oscilava suavemente sobre as guas calmas, a cerca de poucos metros do Sorriso de Lara.
       Ela forou um sorriso. Estava comeando a ficar realmente assustada com a frieza de Alan, mas no queria entregar-se ao desespero.
       Com uma calma que estava longe de sentir, explicou:
       - Voc deve estar pensando como foi que consegui vir at aqui, no? Pois Caroline me ajudou e...
       - E voc a convenceu a fazer isso, com seus ares de garotinha ingnua e desprotegida, no foi? - ele a interrompeu com uma crueldade que a fez estremecer.
       - Alan, no fale assim comigo - pediu com voz trmula.
       - Nem assim nem de nenhum outro modo! Voc para mim no existe mais. Estou farto de ser usado por voc.
       - Alan, quer me ouvir, pelo amor de Deus? 
       Ele sorriu, sarcstico.
       - O que h, srta. MacEuan? Cansou-se um pouco de Jason e veio se divertir com o idiota do Alan? Desculpe, mas o parque de diverses est fechado hoje. Por que no tenta outro?
       Lara perdeu o controle. Sabia que Alan estava ferido profundamente em seu orgulho. E sabia que era isso que o tornava ferino e agressivo. No entanto, no podia mais admitir tamanha humilhao.
       Se Alan no queria ouvir por bem, ento a ouviria  forca. Ela gritou, colocando-se na frente de Alan para impedir-lhe o acesso  cabana:
       - Escute aqui, seu grande idiota!
       Um riso nervoso escapou dos lbios de Alan.
       - Ah, a gatinha tem unhas, ento. E afinal resolve mostr-las. Decidiu mudar de papel, Lara MacEuan? A personagem ingnua e desprotegida no est convencendo o pblico, no  mesmo?
       - Cale-se! - ela gritou,  beira da histeria. - No vou entrar em seu jogo de agressividade, para ver quem de ns dois consegue ser o mais cruel.
       Aproximando o rosto do de Lara, ele respondeu, entre dentes:
       - Escute aqui, mocinha!  bom moderar seu tom de voz, ou esquecerei que sou um cavalheiro. Se quer dizer alguma coisa, faa-o logo e depois v embora daqui.
       - Tudo bem, foi voc quem pediu. O que quero dizer cabe em trs palavras. Trs palavras que eu j deveria ter dito, desde a primeira vez em que descobri que voc era mesmo o homem de minha vida. Mas eu, como a grande idiota romntica que sempre fui, decidi guardar essa revelao para um momento especial, que fosse s nosso.
       Lara fez uma pausa e deu de ombros.
       - Como voc pode ver, foi uma grande tolice... Bem, Alan, s vim at aqui para dizer: eu te amo! Ouviu bem, Alan Crane? Eu te amo!
       Os rostos estavam agora muito prximos. A expresso cruel de Alan foi aos poucos cedendo lugar a um ar de total perplexidade. 
       Lara indagou, ofegante:
       - Quer que eu repita? Eu te amo, seu grande tolo. E, se no lhe disse isso antes, foi porque pretendia lhe confessar meu amor no momento em que ns... ns... finalmente fizssemos amor.
       Alan meneou a cabea, como se no conseguisse acreditar no que acabava de ouvir.
       - Voc v como a vida  engraada, s vezes... - ela continuou. - Eu pensei conhec-lo profundamente, Alan... achei que voc tambm me conhecia. No entanto, tnhamos pontos de vista totalmente opostos sobre uma nica situao.
       Passando a mo pelos cabelos num gesto nervoso, Alan desviou os olhos, como se assim pudesse fugir do encanto irresistvel da mulher a sua frente.
       - Veja... Quando comecei a conversar com Jason, sem me sentir abalada de modo algum, julguei que isso deixaria voc verdadeiramente feliz, Alan. Ora, se at ento voc tinha dvidas sobre minha reao diante de Jason, naquele momento fiquei certa de que essas dvidas tinham desaparecido. Se eu gaguejasse ou ficasse nervosa diante de Jason, a sim era sinal de que ele ainda me amedrontava. Portanto, seria fcil concluir que dentro de mim ainda existia algo no resolvido, certo? Mas eu, embora a princpio tenha ficado surpresa de rever Jason aps tanto tempo, fui me sentindo to calma no decorrer da conversa... No entanto, voc se sentiu terrivelmente infeliz com minha atitude. Julgou que eu estivesse dando uma ateno excessiva a Jason, quando tudo o que fiz foi trat-lo como meu legtimo cunhado, o que ele ser, dentro de alguns dias.
       - No faa isso comigo, Lara... - ele murmurou, fitando-a com um olhar desesperado.	
       - Isso... o qu?
       - No minta para mim.
       - Mas eu no estou mentindo, querido - ela replicou, num fio de voz. - Voc me julga uma pessoa to srdida, a ponto de mentir desse jeito? Por que eu faria isso?
       - No sei, Lara, no sei. A verdade  que estou de novo comeando a acreditar em seus argumentos e tenho medo de me ferir mais uma vez.	
       - Mas eu no quero feri-lo, Alan. S quero me casar com voc... para lhe dar toda a felicidade que merece. Eu te amo, Alan, e nada no mundo poder mudar esse fato. - Erguendo-se na ponta dos ps, Lara tomou-lhe o rosto entre as mos e obrigou-o a encar-la: - Por favor, acredite em mim. Eu te amo, Alan Crane!
       Ele fitou-a por um longo momento. E no conseguiu duvidar daquelas palavras. Num impulso, atraiu-a para si, apertando-a com fora contra o peito.
       - Diga isso de novo, Lara.
       - Eu te amo - ela murmurou com os olhos inundados de lgrimas.
       - Oh, Deus... Se voc tivesse dito antes, eu no teria feito o papel de idiota que fiz diante de Jason. Mas, quando vi vocs dois conversando calmamente, com se nunca se houvessem separado, confesso que fiquei no maior desespero. Se naquele momento eu tivesse certeza de seu amor por mim, talvez tivesse conseguido controlar o cime... Mas voc nunca me disse que me amava, Lara...
       - Por vrias vezes senti vontade de confessar meu amor a voc, mas no consegui. A princpio por embarao, e depois por... digamos, excesso de romantismo. Achei que seria to bom se eu dissesse que te amava no momento em que estivssemos fazendo amor... Sei l, foi tolice minha. E quase pus tudo a perder. Se no fosse Caroline, eu... nem sei como teria encontrado voc.
       - E se no fosse o cime que senti de voc com Jason... Lara querida, ser que pode me perdoar por isso?
       Tocando-lhe os lbios com a ponta dos dedos, Lara sorriu por entre as lgrimas de felicidade.
       - Claro, mas vamos parar de pedir desculpas. Temos a vida inteira para isso, no? E eu estou morrendo de saudade de voc.
       Tomando-a nos braos, Alan beijou-a intensamente, pressionando o corpo contra o dela.
       Lara gemeu de prazer, enquanto tocava extasiada o corpo atltico e msculo pelo qual tanto ansiava. As carcias foram se tornando mais ousadas.
       O mundo ao redor ia aos poucos deixando de existir... Estavam sozinhos naquela ilha deserta, e nada poderia impedi-los de serem felizes.
       Alan, inclinando-se sobre Lara, fez com que se deitasse na areia macia. Suas mos experientes agora tateavam o corpo ardente de desejo, buscando os pontos mais sensveis, ensaiando carcias delicadas, conhecendo por fim a mulher que seu corao elegera.
       Sutilmente, ele desceu-lhe as alas do mai e tocou-lhe os seios com os lbios, deixando que a boca deslizasse pelo ventre e da buscasse uma intimidade maior.
       A noite cara sobre a ilha, envolvendo os amantes. Estes, deitados na areia macia, movimentavam-se lentamente, sentindo-se transportados a um universo diferente, um paraso onde s as emoes contavam.
       O mai de Lara e a tanga de Alan eram agora dois pequenos novelos coloridos na areia. Uma brisa leve soprava, vindo do mar.
       A escuna de Caroline afastava-se em direo ao norte, rumo a Pine Harbor. Um pssaro cantou numa rvore prxima. Entretanto, os amantes no percebiam nada do que se passava ao redor.
       Perdidos na dana do amor, fazendo de seus corpos um nico ser, desfrutando as mais plenas delcias, Lara e Alan agora atingiam o gozo para ento carem num delicioso torpor.
       A madrugada de vero veio surpreend-los. Satisfeitos e felizes, caminharam abraados em direo  cabana, onde outros momentos de paixo os aguardavam.
       Aquele era o incio de uma nova vida para ambos, ansiosamente sonhada. Nunca mais o fantasma da dvida haveria de afast-los.
       
        
        
       
       
       
       
       
       
        
??

??

??

??

